Morphine - Cure for Pain (EUA, 1993)





1. Dawna
2. Buena
3. I'm Free Now
4. All Wrong
5. Candy
6. A Head With Wings
7. In Spite of Me
8. Thursday
9. Cure for Pain
10. Mary Won't You Call My Name?
11. Let's Take a Trip Together
12. Sheila
13. Miles Davis' Funeral


Mark Sandman - Baixo slide de duas cordas, tritar (guitarra elétrica de três cordas), violão, órgão, vocais
Dana Colley - Saxofone barítono, saxofone tenor, backing vocals
Jerome Deupree - bateria

Billy Conway - bateria em "Cure for Pain" e "Let's Take a Trip Together" e cocktail drum overdub em "Thursday"
Jimmy Ryan - mandolin em "In Spite of Me"
Ken Winokur - percussão em " Miles Davis' Funeral"



Ouvir Morphine tem, com o perdão da metáfora pobre (até mesmo porque o próprio líder da banda dizia que o nome é na verdade uma referẽncia ao deus dos sonhos, Morpheus), quase o efeito de injetar uma dose de morfina nas veias. O rock com saxofones no lugar das guitarras (não, nada a ver com o lirismo exagerado do VDGG) e as letras "pé no chão" acalmam e tornam a vida mais agradável de ser curtida, difícil segurar o impulso de sair dançando ou, pelo menos, batendo o pé no chão.

Formada em Massachusetts no finalzinho dos anos 80 pelo baixista e vocalista Mark Sandman, que faz milagres com seu baixo de duas cordas e com sua guitarra de três (a chamada "tritar"), pelo saxofonista Dana Colley e pelo baterista Jerome Deupree, o Morphine atraiu atenção da crítica logo no seu disco de estréia, o melancólico "Good", de 1991. Apesar de nunca terem sido um sucesso de vendas, a banda foi tendo um público cada vez maior e mais fiel. Para o segundo disco, este "Cure for Pain", lançaram mão de ritmos mais "dançantes" (no melhor sentido que vocês puderem imaginar para essa palavra) e conseguiram emplacar algumas músicas nas rádios universitárias norte-americanas, além de correr o mundo em turnê.

"Cure for Pain" é com certeza uma boa porta de entrada para conhecer o som desta espetacular banda, muito embora outros registros podem agradar mais, dependendo do gosto do ouvinte. O sax tímido e melancólico que lembra o clima deprê do disco de estréia de "Dawna" já de cara prova que estamos diante de uma obra prima, e o que temos a seguir é uma sucessão de belíssimas melodias, intercalando momentos de ritmo bem marcado pela bateria e de harmoniosos confrontos de vocal e saxofone que realmente mexem com o ouvinte. O minimalismo que só instrumentos com cordas faltando podem proporcionar aliados ao hipnótico som do baixo tocado impecavelmente com um slide são o pano de fundo perfeito para o vocal indefectível de Sandman, uma espécie de crooner dos anos 90, sem dúvida um dos músicos mais notáveis daquela década.

O Morphine ainda lançaria mais três discos de estúdio, vindo a acabar quando Sandman faleceu de um ataque cardíaco em pleno palco, em 1999, aos 46 anos, impondo um fim prematuro a esta que foi indiscutivelmente uma das melhores bandas do final do século passado.

Rafael Borges da Silva, 3 de abril de 2009

KUKL - The Eye (Islândia, 1984)





01 – Assassin
02 – Anna
03 – Open the Window and Let the Spirit Fly Free
04 – Moonbath
05 – Dismembered
06 – Seagull (Fuglar)
07 – The Spire
08 – Handa Tjolla

Björk Guðmundsdóttir – vocais
Einar Örn Benediktisson – vocais e trumpete
Guðlaugur Kristinn Óttarsson – guitarra
Birgir Mogensen – baixo
Einar Arnaldur Melax – teclado
Sigtryggur Baldursson – bateria


A cantora islandesa Björk Guðmundsdóttir merece um reconhecimento que deve preceder qualquer análise que possa-se por ventura vir-se a fazer de seus talentos musicais: conseguiu um lugar no mainstream mundial mesmo fazendo um pop esquisito e de difícil assimilação, dando uma verdadeira nova concepção para o gênero e influenciando inúmeros artistas (indie ou não) surgidos nos últimos vinte ou trinta anos.

Mas antes de se aventurar pela música pop Björk fez parte de inúmeras bandas, do punk ao pós-punk, passando pelo gótico de vanguarda, que é onde se encaixaria o KUKL (“bruxaria” em um idioma islandês da época dos vikings). O gótico por si só já é um gênero musical extremamente obscuro e macabro, mas quando feito numa ilha gelada nos arredores do Pólo Norte o resultado é ainda mais nefasto. E é isso que ouvimos nesse disco de estréia, cujo título foi inspirado no livro predileto da cantora, “The Story of the Eye”, escrito em 1928 pelo francês Georges Bataille, que conta a história de um jovem casal que envolve em uma de suas violentas e sexuais aventuras o olho arrancado de um sujeito (talvez uma inspiração para o japonês Suehiro Maruo). E as sensações que o disco provoca no ouvinte faz qualquer disco do Bauhaus parecer a mais colorida das festas new wave: as atmosferas mórbidas nos remetem a rituais orientais sangrentos, principalmente devido aos sopros e ao vocal característico de Björk, não muito diferente da sua carreira solo, mas um tanto quanto mais cru e extremo, e tudo isso suportado por uma cozinha pesada e envolvente, com uma técnica apurada resultante de uma banda formada por membros oriundos de outras bandas já existentes – mas sem perder o frescor e a crueza de uma banda recém formada por músicos estreantes.

“Assassin” é uma música forte, pesada, perturbadora, onde Björk faz os backing vocals para o pesadelo vocal promovido por Einar Örn, um punk-gótico clássico que vai crescendo em angústia para culminar em um grito de pânico de gelar o sangue nas veias de um esquimó; já em “Anna” ela passa de mera coadjuvante a elemento essencial da banda, expurgando os vocais mais recônditos do fundo de su’alma. “Open the Window and Let Your Spirit Fly Free” tem uma estrutura gótica clássica, mas um pouco mais experimental do que estamos habituados a ouvir, seguida por “Moonbath”, onde abre-se mão da percussão para promover uma viagem sem volta ao lado mais escuro da noite. Tenebrosa. “Dismembered” é um pós-punk quase clássico, mas o indefectível vocal da islandesa continua fazendo a diferença. “Seagull” é uma música única, agressiva e inofensiva ao mesmo tempo, e na sequência temos talvez a faixa mais completa e característica da banda, baixo e baterias marcantes e uma parede glacial de guitarras servindo de background para as incursões demenciais de Björk e Einar Örn, encerrando com “Handa Tjolla”, com trovoadas e percussão tribal que parecem ter saído das mais obscuras cavernas rochosas litorâneas da Islândia.

A banda ainda lançaria mais um disco de estúdio, ainda mais complexo e experimental, e que também vale a pena ser conhecido; mas, para quem conhece a carreira solo ou nem isso da islandesa, esse “The Eye” é altamente recomendado como porta de entrada para se regozijar com o que essa peculiar artista tem a mostrar, mas que de maneira alguma resume sua tão grandiloqüente carreira.


Rafael Borges da Silva, 24 de abril de 2009

Roger Waters - Radio K.A.O.S. (Inglaterra, 1987)





1 – Radio Waves 5:05
2 – Who Needs Information 5:49
3 – Me or Him 5:24
4 – The Powers That Be 4:03
5 – Sunset Strip 4:03
6 – Home 6:59
7 – Four Minutes 3:39
8 – The Tide is Turning (After Live Aid) 5:44

Roger Waters: Vocais, violão, baixo, teclados
Andy Fairweather Low: Guitarras
Jay Stapley: Guitarras
Mel Collins: Saxofones
Ian Ritchie: Piano, teclados, efeitos
Graham Broad: Bateria e percussão

John Linwood: Bateria em “The Powers That Be”
Nick Glenny-Smith: DX7, emu e baixo em “The Powers That Be”
Matt Irving: Órgão Hammond em “The Powers That Be”
Paul Carrack: Vocalista convidado em “The Powers That Be”
Clare Torry: Vocalista convidada em “Home” e “Four Minutes”
Suzzane Rhatigan: Backing vocals principais em Radio Waves”, “Me or Him?”, “Sunset Strip” e “The Tide is Turning”
Kate Kissoon, Doreen Chanter, Madeline Bell, Steve Langer & Vicky Brown: Backing vocals em “Who Needs Information”, “The Powers That Be” e “Radio Waves”
Metais em “Who Needs Information” e “The Powers That Be”:
Ian Ritchie: Saxofone tenor
John Phirkell: Trumpete
Peter Thoms: Trombone
Metais em “Sunset Strip”:
Mell Collins: Múltiplos saxofones
Ian Ritchie: Saxofone tenor
John Pirkell: Trumpete
Peter Thoms: Trombone


É duro ter que pegar um disco desses na mão e ter que ler na capa: “ROGER WATERS: Ex-integrante do Pink Floyd”. Pra ver se vende mais? Então foi em vão, porque a carreira solo do Sr. Waters não chegou nem aos pés da de sua antiga banda; o que não deixa de ser uma injustiça, afinal, ele sempre foi o principal compositor do Pink Floyd pós-Syd Barrett, e conseguiu crescer cada vez mais dentro dela, chegando ao ponto de mandar o membro original Rick Wright pro olho da rua e gravar o “The Final Cut”, em 1983, considerado por muitos o pior disco da banda, o que fez o fim ser decretado, e cada um “tentar a sorte” com suas respectivas carreiras solo...

E o Roger Waters, que já contou com os talentos guitarrísticos de Eric Clapton (em seu primeiro disco solo, “The Pros and Cons of Hitch-Hiking”, de 1984) e Jeff Beck (no “Amused to Death”, lançado em 1990), neste Radio KAOS junta-se a banda The Bleeding Heart para contar a história de Billy, o incrível homem capaz de captar sinais de rádio diretamente na cabeça.

A guerra é um tema comum nas letras de Waters, e nesse disco não foi diferente. Billy só começa a controlar seu poder de captar ondas de rádio depois que seu irmão, Benny, rouba um telefone sem fio depois de quebrar a vitrine de uma loja, irritado com as inúmeras imagens de Margaret Thatcher nas TV’s. Benny esconde o telefone sem fio na cadeira de rodas de Billy, e a partir daí ele começa a usar o objeto para melhorar seu poder de captação de ondas de rádio. Benny acaba indo para a cadeia, enquanto seu irmão Billy se muda para Los Angeles. Em pouco tempo torna-se amigo de Jim, o DJ de uma rádio de rock renegada da Califórnia: a Radio K.A.O.S. .


Jim: This is KAOS. You and I are listening to KAOS in Los Angeles. Let’s go to the telephones now and take a request.
Billy: Hello, I’m Billy.
Jim: Yes?
Billy: I hear radio waves in my head.
Jim: You Hear radio waves in your head? Ah! Is there a request that you have tonight for KAOS?


Radio Waves: O tom do disco começa como uma rádio FM mesmo, com um rock eficiente e de fácil assimilação, muitos backing vocals, enfim, uma música pra cima e agradável, contando que Billy capta sinais tanto da freqüência da polícia como das mais distantes estrelas...

Who Needs Information?: Os backing vocais se tornam quase onipresentes, e o clima do disco fica um pouco mais sério e instigante. O tema é a overdose de informações que Billy recebia de todos os cantos do mundo (e nos leva a pensar se nós, seres humanos normais, também não estamos sendo exageradamente bombardeados pelos veículos de mídia...).

Me or Him?: Uma belíssima balada, Roger Waters toca um instrumento de sopro chamado “shakuhachi”, que dá uma atmosfera de mansidão e tranqüilidade, um contraponto a angústia de Benny na cadeia, ouvindo num rádio velho todas as notícias sobre as guerras e a política do mundo. O vocal de Waters está eloqüente, intenso e impetuoso, usando o recurso já usado no “The Wall”, do Pink Floyd, de sobrepor sua voz gritada com sua voz sussurrada, mas dessa vez com mais potência. Billy descobre que consegue manipular tão bem seu poder de captação e emissão de ondas de rádio que agora já é capaz de controlar os computadores mais poderosos do mundo, simulando ataques nucleares e desabilitando o poderio militar de retaliação.

Jim: This is some live rock and roll at KAOS, where rock and roll comes out of chaos and a song called “The Powers That Be”...

The Powers That Be: Nessa música os backing vocals e os metais dão o volume necessário para transformar um rockzinho popular e eficaz num rockão potente, capaz de levantar estádios, além de uma excelente linha de baixo.

Sunset Strip: O clima é de um dia ensolarado em alguma praia de Los Angeles, um popzinho guitarrado ao estilo de Satriani. Billy se sente um peixe fora d´água entre a estranha população da Califórnia e, acima de tudo, sente falta de sua vida com seu irmão Benny. Ele quer voltar pra casa.

Home: A maior faixa do disco, mas ainda um pop rock sobre a necessidade de sermos flexíveis com o nosso conceito de “casa”. Billy simula a explosão de uma bomba atômica capaz de destruir o mundo inteiro, o “Grande Botão Vermelho” teria sido apertado...

Billy: Four Minutes and Counting.
Jim: O.K.
Billy: They pressed the button, Jim.
Jim: They pressed the button Billy, what button?
Billy: The big red one.
Jim: You mean the button?
Billy: Goodbye, Jim.
Jim: Goodbye! Oh yes, this ain’t au revoir, it’s goodbye! Ha! Ha!
Jim: This is KAOS. It’s a beautiful, balmy, Southern California sunny day. It’s 80 degrees... I said balmy... I could say bomby ... Ha! Ha! O.K. I’m Jim and this is Radio KAOS and with only four minutes left to us, let’s use this as wisely as possible...


Four Minutes: Uma grande canção, grandiosa, a mais próxima do que costumamos chamar de rock progressivo, destaque para a emocionada interpretação de Clare Torry, já famosa entre os fãs de Pink Floyd pela contribuição à extraordinária e soberba música “Great Gig in the Sky”. O mundo todo está apreensivo com a possibilidade de acontecer o fim do mundo, mas tudo não passa de uma armação de Billy e suas ondas de rádio...

The Tide is Turning: Um visceral manifesto anti-guerra encerra o álbum. Roger Waters soube mandar seu recado de forma definitiva particularmente nessa música, que tem um climão bastante parecido com o “The Wall”, o último grande disco de sua ex-banda, o que torna essa obra ainda mais nostálgica e inesquecível...

É muito difícil para um artista se livrar do rótulo “ex-integrante de tal banda”, mas pelo menos, principalmente nesse disco, Roger Waters conseguiu fazer um som com estilo próprio, muito aquém da genialidade mostrada durante seus anos de auge como baixista, vocalista e compositor do Pink Floyd, mas mesmo assim uma importante e interessante obra no sempre bem vindo contexto de rock and roll como grande gerador de discussões acerca da realidade que nos cerca, e da sempre presente ameaça de um conflito nuclear definitivo e avassalador...


Rafael Borges da Silva, 28 de abril de 2006