Jethro Tull - Benefit (Inglaterra, 1970)




01. With You There To Help Me
02. Nothing To Say
03. Alive And Well And Living
04. Son
05. For Michael Collins, Jeffery And Me
06. To Cry You A Song
07. A Time For Everything?
08. Inside
09. Play In Time
10. Sossity: You’re A Woman


Ian Anderson - vocal e flauta
Martin Barre - guitarra
Glenn Cornick - baixo
Clive Bunker - bateria
John Evan - piano, orgão



Depois de uma estréia blueseira e de um excelente segundo disco, onde o folk quase que predominou, o Jethro Tull lança seu terceiro álbum que, inexplicavelmente, não teve a aceitação que merecia... Mas se trata de um disco que eu classificaria como uma espécie de jazz rock folk progressivo, mas vai além de qualquer uma dessas definições. É uma obra única, diferente de tudo que se gravou antes, e eu diria depois também...

“Benefit” não é um disco difícil, pelo contrário, é bastante gostável até. Melodias simples, sem exageros, letras acessíveis, algo filosóficas, mas muito assimiláveis. Na minha opinião, um disco perfeito, daqueles pra se ouvir do princípio ao fim. Todas as músicas são perfeitas:

With You There to Help Me – O disco abre com umas risadas que remetem o ouvinte a uma floresta de gnomos, como já foi colocado pelo Lagarto Alienígena. A batalha travada entre a flauta e a guitarra é uma das coisas mais geniais que a banda já fez, e o refrão dessa música é de uma nostalgia impressionante.

Nothing to Say – Uma música simples, mas com um clima magnífico, o Ian Anderson entoa a melodia como se fosse um hino,e a guitarra do Martin Barre dá o tom melancólico que a letra sugere.

Alive and Well and Living In – Chega a hora de John Evan mostrar seu talento nas teclas. Mais uma melodia simples, mas muito eficiente.

Son – Talvez a música mais progressiva do disco, com uma mudança de andamento surpreendente, e uma letra com um sarcasmo absolutamente genial.

For Michael Collins, Jeffrey And Me – Mais uma música nostálgica, com um refrão maravilhoso que fica dias reverberando na cabeça...

To Cry You A Song – Acredito que seja a música mais famosa do disco, junto com “Teacher”, que não aparece em todas as versões. Um riff excelente é repetido do início ao fim, intercalando com várias vozes (não sei se são dos membros da banda ou só a voz do Ian Anderson amontoada sobre ela mesmo...) e com solos perfeitos do Martin Barre.

A Time For Everything? – Musica forte, pesadona, deve ter influenciado muito metaleiro por aí... Poderosas incursões de flauta também.

Inside – Extraordinária interpretação vocal de Ian Anderson, assim como da flauta. O refrão não é repetido, o que dá vontade de voltar a agulha (ah, sim, gostaria de avisar que só conheço esse disco em vinil, todo furado, arranhado e chiado, mas mesmo assim escutei-o centenas de vezes...).

Play In Time – Mais um metalzão setentista da melhor qualidade.

Sossity: You’re A Woman – Tudo se acalma, a banda parece que senta na grama e canta uma baladinha hippie. Mas é um ótimo encerramento, o tecladinho acompanha o vocal emocionado de Ian Anderson perfeitamente.

Em suma: mais um disco perfeito dessa que é uma das melhores bandas de todos os tempos, indiscutivelmente. Escute, verás que não minto!


Rafael Borges da Silva, 3 de abril de 2009

Pearl Jam - Backspacer (EUA, 2009)





1 - Gonna See My Friend
2 - Got Some
3 - The Fixer
4 - Johnny Guitar
5 - Just Breathe
6 - Amongst the Waves
7 - Unthought Known
8 - Supersonic
9 - Speed of Sound
10 - Force of Nature
11 - The End


Jeff Ament – baixo
Matt Cameron – bateria e percussão
Stone Gossard – guitarras
Mike McCready – guitarras
Eddie Vedder – violão e vocais



A postura que o Pearl Jam procurou manter, nesses 19 anos de carreira, de banda anti-comercial, que se recusava a fazer clips para a MTV e shows em locais que tivessem ingressos vendidos pela Ticketmaster, tinha uma única razão de ser aparente: colocar os fãs em primeiro lugar. Porém, essa atitude carrega uma pequena contradição: eles são considerados hoje uma das bandas mais populares da última década do Século XX - e esse novo registro de estúdio só confirma esse título.

O sucesso arrebatador (e um pouco tardio) de seu disco de estréia, "Ten", de 1991, precedeu lançamentos que tentavam lidar com o sucesso da forma mais artística possível, e a banda foi se tornando cada vez mais prisioneira do seu próprio estilo; a preocupação em agradar os fãs estava acorrentando a criatividade da banda a um estilo que, apesar de estar a margem do grunge, tinha uma característica própria, o que sem dúvida estava limitando a criatividade de seus músicos. Por isso, com o lançamento de "No Code", em 1996, como o próprio título denuncia, o Pearl Jam estava disposto a enxergar novos horizontes musicais que o afastavam de qualquer rótulo existente: eles estavam de certa forma anunciando que queriam experimentar. E foi o que eles fizeram, naquele e nos albuns seguintes, agregando elementos de worldbeat, art rock, folk etc. às suas composições.

Eis então que, beirando os 20 anos de existência, a banda resolve fazer uma espécie de retorno ao som mais cru e direto do início de sua carreira, ainda mais longe do que conhecemos como grunge. Mas essa nova guinada na carreira na verdade deve ser encarada como mais um esforço criativo de trazer novidades aos fãs, porque mesmo soando como um revival do som dos seus primeiros discos, na verdade o que temos nesse "Backspacer", como o próprio nome denuncia, é uma tentativa de "apagar" o passado e vislumbrar um novo início - o que se mostra impossível, afinal os registros anteriores estão aí, estabelecendo os parâmetros de cada época e gerando as inevitáveis comparações; Os botões de máquina de escrever na capa sutilmente nos dizem isso, já que o que está escrito no papel não pode ser apagado - esse recurso só tornou-se possível com as máquinas de escrever mais modernas e, mais recentemente, com os computadores.

Mas a verdade é que, apesar da intenção de num primeiro momento aparentar ser mais pop, o disco nova na verdade é um dos mais experimentais de sua carreira, não por incluir elementos criativos nas músicas, e sim experimentando uma nova maneira de dirigir a carreira da banda, mantendo suas características e ao mesmo tempo somando elementos nunca antes ouvidos. As músicas são curtas e com "pegada", estruturadas por hooks e refrões grudentos; as guitarras estão pesadas e certeiras, e o vocal de Eddie Vedder não poderia estar mais perfeito. As letras talvez sejam o indício mais evidente desse experimentalismo disfarçado. O que temos no final é um conjunto de excelentes canções rock 'n' roll, que oferece aos fãs o que eles, teoricamente, querem ouvir. Só o tempo dirá que eles foram bem sucedidos nessa empreitada...


Rafael Borges da Silva, 30 de setembro de 2009

Gentle Giant – Playing the Fool (Inglaterra, 1977)





1 – Just the Same
2 – Proclamation
3 – On Reflection
4 – Excerpts from “Octopus”
5 – Funny Ways
6 – The Runaway
7 – Experience
8 – So Sincere
9 – Free Hand
10 – Sweet Georgia Brown (Breakdown in Brussels)
11 – Peel the Paint / I Lost My Head

Garry Green - guitarra elétrica, violão, viola de 12 cordas, flauta doce, vocais e percussão
Kerry Minnear – teclados, cello, viber, flauta doce, vocais e percussão
Derek Shulman – vocais, sax, flauta doce, baixo e percussão
Ray Shulman – baixo, violino, violão, flauta doce, trompete, vocais e percussão
John Weathers – bateria, vibes, tamborim, vocais e percussão


1977 foi um ano decisivo para o rock n roll de um modo geral, mas muito mais importante para o Gentle Giant: os megaconcertos das megabandas de progressivo já tinham “dado tudo que tinham que dar”, e o punk engatinhava mas já se mostrava um gênero que chegou pra revolucionar, sendo um pesadelo para os monstros sagrados da época como Yes, Genesis, Emerson, Lake & Palmer e etc. Mas para a banda dos Irmãos Shulman, formada no final dos anos 60, a partir do grupo de soul rock Simon Dupree and the Big Sound, o negócio estava particularmente complicado. Além da falta de público para o intrincado e experimental som que eles faziam, havia uma questão mais complicada: a falta de criatividade. O disco que deu origem a turnê, Interview, é considerado pelos próprios músicos o início do fim – mas que rendeu uma série espetacular de shows, no final de 1976, com performances memoráveis perfeitamente bem executadas, bem gravadas e lançadas nesse excelente disco ao vivo, que pode ser considerado o canto do cisne dessa extraordinária banda.

O disco abre com dois petardos, “Just the Same” e “Proclamation”, faixas de abertura dos dois discos anteriores ao Interview, e que quebram o gelo de uma forma ainda não tão experimental, porém bastante certeira; mas é com “On Reflection” que eles mostram por que são considerados os músicos mais criativos que o rock progressivo já produziu em sua história. Mesmo com algumas mudanças no arranjo que a tornam um pouco mais simples do que a original de estúdio, a simetria dos instrumentos e a harmonia dos vocais impressionam. E como eles já tiram de letra as constantes mudanças de ritmo e melodia no meio de cada música, resolvem fazer um apanhado dos trechos mais importantes de um de seus melhores discos, Octopus, de 1972. “Funny Ways”, do disco de estréia, é o momento mais bucólico do show, com um longo (mas nada entediante) solo de xilofone. “The Runaway/Experience”, do disco In a Glass House, é o momento do guitarrista Gary Green mostrar que não fica devendo nada em talento para os irmãos Shulman, aliando peso e técnica de uma forma muito particular. “So Sincere” troca o refrão fácil da versão de estúdio por um intricado refrão de guitarra, seguido pelo ótima “Free Hand”, faixa título do disco de maior sucesso nos EUA. E, apesar de ser a turnê do Interview, o disco é praticamente esquecido nesse registro, sendo lembrado apenas no final do “bis”, que junta duas das músicas com o vocal mais agressivo já feito por Derek Shulman até então: “Peel the Paint” e “I Lost My Head”.

O que se seguiu a esse disco era previsível: a banda foi ficando cada vez menos experimental e mais comercial, e em 1980 o fim do grupo é anunciado – depois de uma década de trabalhos incessantes, melodias extremamente criativas e letras filosóficas, que foram mais do que suficientes para incluí-los no seleto rol das melhores bandas dos anos 70 – fato comprovado e certificado ao se ouvir esse que é não só o seu melhor disco ao vivo, mas um dos melhores discos ao vivo já gravados. Hear the Giant!!!


Rafael Borges da Silva, 8 de agosto de 2009

Morphine - Cure for Pain (EUA, 1993)





1. Dawna
2. Buena
3. I'm Free Now
4. All Wrong
5. Candy
6. A Head With Wings
7. In Spite of Me
8. Thursday
9. Cure for Pain
10. Mary Won't You Call My Name?
11. Let's Take a Trip Together
12. Sheila
13. Miles Davis' Funeral


Mark Sandman - Baixo slide de duas cordas, tritar (guitarra elétrica de três cordas), violão, órgão, vocais
Dana Colley - Saxofone barítono, saxofone tenor, backing vocals
Jerome Deupree - bateria

Billy Conway - bateria em "Cure for Pain" e "Let's Take a Trip Together" e cocktail drum overdub em "Thursday"
Jimmy Ryan - mandolin em "In Spite of Me"
Ken Winokur - percussão em " Miles Davis' Funeral"



Ouvir Morphine tem, com o perdão da metáfora pobre (até mesmo porque o próprio líder da banda dizia que o nome é na verdade uma referẽncia ao deus dos sonhos, Morpheus), quase o efeito de injetar uma dose de morfina nas veias. O rock com saxofones no lugar das guitarras (não, nada a ver com o lirismo exagerado do VDGG) e as letras "pé no chão" acalmam e tornam a vida mais agradável de ser curtida, difícil segurar o impulso de sair dançando ou, pelo menos, batendo o pé no chão.

Formada em Massachusetts no finalzinho dos anos 80 pelo baixista e vocalista Mark Sandman, que faz milagres com seu baixo de duas cordas e com sua guitarra de três (a chamada "tritar"), pelo saxofonista Dana Colley e pelo baterista Jerome Deupree, o Morphine atraiu atenção da crítica logo no seu disco de estréia, o melancólico "Good", de 1991. Apesar de nunca terem sido um sucesso de vendas, a banda foi tendo um público cada vez maior e mais fiel. Para o segundo disco, este "Cure for Pain", lançaram mão de ritmos mais "dançantes" (no melhor sentido que vocês puderem imaginar para essa palavra) e conseguiram emplacar algumas músicas nas rádios universitárias norte-americanas, além de correr o mundo em turnê.

"Cure for Pain" é com certeza uma boa porta de entrada para conhecer o som desta espetacular banda, muito embora outros registros podem agradar mais, dependendo do gosto do ouvinte. O sax tímido e melancólico que lembra o clima deprê do disco de estréia de "Dawna" já de cara prova que estamos diante de uma obra prima, e o que temos a seguir é uma sucessão de belíssimas melodias, intercalando momentos de ritmo bem marcado pela bateria e de harmoniosos confrontos de vocal e saxofone que realmente mexem com o ouvinte. O minimalismo que só instrumentos com cordas faltando podem proporcionar aliados ao hipnótico som do baixo tocado impecavelmente com um slide são o pano de fundo perfeito para o vocal indefectível de Sandman, uma espécie de crooner dos anos 90, sem dúvida um dos músicos mais notáveis daquela década.

O Morphine ainda lançaria mais três discos de estúdio, vindo a acabar quando Sandman faleceu de um ataque cardíaco em pleno palco, em 1999, aos 46 anos, impondo um fim prematuro a esta que foi indiscutivelmente uma das melhores bandas do final do século passado.

Rafael Borges da Silva, 3 de abril de 2009

KUKL - The Eye (Islândia, 1984)





01 – Assassin
02 – Anna
03 – Open the Window and Let the Spirit Fly Free
04 – Moonbath
05 – Dismembered
06 – Seagull (Fuglar)
07 – The Spire
08 – Handa Tjolla

Björk Guðmundsdóttir – vocais
Einar Örn Benediktisson – vocais e trumpete
Guðlaugur Kristinn Óttarsson – guitarra
Birgir Mogensen – baixo
Einar Arnaldur Melax – teclado
Sigtryggur Baldursson – bateria


A cantora islandesa Björk Guðmundsdóttir merece um reconhecimento que deve preceder qualquer análise que possa-se por ventura vir-se a fazer de seus talentos musicais: conseguiu um lugar no mainstream mundial mesmo fazendo um pop esquisito e de difícil assimilação, dando uma verdadeira nova concepção para o gênero e influenciando inúmeros artistas (indie ou não) surgidos nos últimos vinte ou trinta anos.

Mas antes de se aventurar pela música pop Björk fez parte de inúmeras bandas, do punk ao pós-punk, passando pelo gótico de vanguarda, que é onde se encaixaria o KUKL (“bruxaria” em um idioma islandês da época dos vikings). O gótico por si só já é um gênero musical extremamente obscuro e macabro, mas quando feito numa ilha gelada nos arredores do Pólo Norte o resultado é ainda mais nefasto. E é isso que ouvimos nesse disco de estréia, cujo título foi inspirado no livro predileto da cantora, “The Story of the Eye”, escrito em 1928 pelo francês Georges Bataille, que conta a história de um jovem casal que envolve em uma de suas violentas e sexuais aventuras o olho arrancado de um sujeito (talvez uma inspiração para o japonês Suehiro Maruo). E as sensações que o disco provoca no ouvinte faz qualquer disco do Bauhaus parecer a mais colorida das festas new wave: as atmosferas mórbidas nos remetem a rituais orientais sangrentos, principalmente devido aos sopros e ao vocal característico de Björk, não muito diferente da sua carreira solo, mas um tanto quanto mais cru e extremo, e tudo isso suportado por uma cozinha pesada e envolvente, com uma técnica apurada resultante de uma banda formada por membros oriundos de outras bandas já existentes – mas sem perder o frescor e a crueza de uma banda recém formada por músicos estreantes.

“Assassin” é uma música forte, pesada, perturbadora, onde Björk faz os backing vocals para o pesadelo vocal promovido por Einar Örn, um punk-gótico clássico que vai crescendo em angústia para culminar em um grito de pânico de gelar o sangue nas veias de um esquimó; já em “Anna” ela passa de mera coadjuvante a elemento essencial da banda, expurgando os vocais mais recônditos do fundo de su’alma. “Open the Window and Let Your Spirit Fly Free” tem uma estrutura gótica clássica, mas um pouco mais experimental do que estamos habituados a ouvir, seguida por “Moonbath”, onde abre-se mão da percussão para promover uma viagem sem volta ao lado mais escuro da noite. Tenebrosa. “Dismembered” é um pós-punk quase clássico, mas o indefectível vocal da islandesa continua fazendo a diferença. “Seagull” é uma música única, agressiva e inofensiva ao mesmo tempo, e na sequência temos talvez a faixa mais completa e característica da banda, baixo e baterias marcantes e uma parede glacial de guitarras servindo de background para as incursões demenciais de Björk e Einar Örn, encerrando com “Handa Tjolla”, com trovoadas e percussão tribal que parecem ter saído das mais obscuras cavernas rochosas litorâneas da Islândia.

A banda ainda lançaria mais um disco de estúdio, ainda mais complexo e experimental, e que também vale a pena ser conhecido; mas, para quem conhece a carreira solo ou nem isso da islandesa, esse “The Eye” é altamente recomendado como porta de entrada para se regozijar com o que essa peculiar artista tem a mostrar, mas que de maneira alguma resume sua tão grandiloqüente carreira.


Rafael Borges da Silva, 24 de abril de 2009

Roger Waters - Radio K.A.O.S. (Inglaterra, 1987)





1 – Radio Waves 5:05
2 – Who Needs Information 5:49
3 – Me or Him 5:24
4 – The Powers That Be 4:03
5 – Sunset Strip 4:03
6 – Home 6:59
7 – Four Minutes 3:39
8 – The Tide is Turning (After Live Aid) 5:44

Roger Waters: Vocais, violão, baixo, teclados
Andy Fairweather Low: Guitarras
Jay Stapley: Guitarras
Mel Collins: Saxofones
Ian Ritchie: Piano, teclados, efeitos
Graham Broad: Bateria e percussão

John Linwood: Bateria em “The Powers That Be”
Nick Glenny-Smith: DX7, emu e baixo em “The Powers That Be”
Matt Irving: Órgão Hammond em “The Powers That Be”
Paul Carrack: Vocalista convidado em “The Powers That Be”
Clare Torry: Vocalista convidada em “Home” e “Four Minutes”
Suzzane Rhatigan: Backing vocals principais em Radio Waves”, “Me or Him?”, “Sunset Strip” e “The Tide is Turning”
Kate Kissoon, Doreen Chanter, Madeline Bell, Steve Langer & Vicky Brown: Backing vocals em “Who Needs Information”, “The Powers That Be” e “Radio Waves”
Metais em “Who Needs Information” e “The Powers That Be”:
Ian Ritchie: Saxofone tenor
John Phirkell: Trumpete
Peter Thoms: Trombone
Metais em “Sunset Strip”:
Mell Collins: Múltiplos saxofones
Ian Ritchie: Saxofone tenor
John Pirkell: Trumpete
Peter Thoms: Trombone


É duro ter que pegar um disco desses na mão e ter que ler na capa: “ROGER WATERS: Ex-integrante do Pink Floyd”. Pra ver se vende mais? Então foi em vão, porque a carreira solo do Sr. Waters não chegou nem aos pés da de sua antiga banda; o que não deixa de ser uma injustiça, afinal, ele sempre foi o principal compositor do Pink Floyd pós-Syd Barrett, e conseguiu crescer cada vez mais dentro dela, chegando ao ponto de mandar o membro original Rick Wright pro olho da rua e gravar o “The Final Cut”, em 1983, considerado por muitos o pior disco da banda, o que fez o fim ser decretado, e cada um “tentar a sorte” com suas respectivas carreiras solo...

E o Roger Waters, que já contou com os talentos guitarrísticos de Eric Clapton (em seu primeiro disco solo, “The Pros and Cons of Hitch-Hiking”, de 1984) e Jeff Beck (no “Amused to Death”, lançado em 1990), neste Radio KAOS junta-se a banda The Bleeding Heart para contar a história de Billy, o incrível homem capaz de captar sinais de rádio diretamente na cabeça.

A guerra é um tema comum nas letras de Waters, e nesse disco não foi diferente. Billy só começa a controlar seu poder de captar ondas de rádio depois que seu irmão, Benny, rouba um telefone sem fio depois de quebrar a vitrine de uma loja, irritado com as inúmeras imagens de Margaret Thatcher nas TV’s. Benny esconde o telefone sem fio na cadeira de rodas de Billy, e a partir daí ele começa a usar o objeto para melhorar seu poder de captação de ondas de rádio. Benny acaba indo para a cadeia, enquanto seu irmão Billy se muda para Los Angeles. Em pouco tempo torna-se amigo de Jim, o DJ de uma rádio de rock renegada da Califórnia: a Radio K.A.O.S. .


Jim: This is KAOS. You and I are listening to KAOS in Los Angeles. Let’s go to the telephones now and take a request.
Billy: Hello, I’m Billy.
Jim: Yes?
Billy: I hear radio waves in my head.
Jim: You Hear radio waves in your head? Ah! Is there a request that you have tonight for KAOS?


Radio Waves: O tom do disco começa como uma rádio FM mesmo, com um rock eficiente e de fácil assimilação, muitos backing vocals, enfim, uma música pra cima e agradável, contando que Billy capta sinais tanto da freqüência da polícia como das mais distantes estrelas...

Who Needs Information?: Os backing vocais se tornam quase onipresentes, e o clima do disco fica um pouco mais sério e instigante. O tema é a overdose de informações que Billy recebia de todos os cantos do mundo (e nos leva a pensar se nós, seres humanos normais, também não estamos sendo exageradamente bombardeados pelos veículos de mídia...).

Me or Him?: Uma belíssima balada, Roger Waters toca um instrumento de sopro chamado “shakuhachi”, que dá uma atmosfera de mansidão e tranqüilidade, um contraponto a angústia de Benny na cadeia, ouvindo num rádio velho todas as notícias sobre as guerras e a política do mundo. O vocal de Waters está eloqüente, intenso e impetuoso, usando o recurso já usado no “The Wall”, do Pink Floyd, de sobrepor sua voz gritada com sua voz sussurrada, mas dessa vez com mais potência. Billy descobre que consegue manipular tão bem seu poder de captação e emissão de ondas de rádio que agora já é capaz de controlar os computadores mais poderosos do mundo, simulando ataques nucleares e desabilitando o poderio militar de retaliação.

Jim: This is some live rock and roll at KAOS, where rock and roll comes out of chaos and a song called “The Powers That Be”...

The Powers That Be: Nessa música os backing vocals e os metais dão o volume necessário para transformar um rockzinho popular e eficaz num rockão potente, capaz de levantar estádios, além de uma excelente linha de baixo.

Sunset Strip: O clima é de um dia ensolarado em alguma praia de Los Angeles, um popzinho guitarrado ao estilo de Satriani. Billy se sente um peixe fora d´água entre a estranha população da Califórnia e, acima de tudo, sente falta de sua vida com seu irmão Benny. Ele quer voltar pra casa.

Home: A maior faixa do disco, mas ainda um pop rock sobre a necessidade de sermos flexíveis com o nosso conceito de “casa”. Billy simula a explosão de uma bomba atômica capaz de destruir o mundo inteiro, o “Grande Botão Vermelho” teria sido apertado...

Billy: Four Minutes and Counting.
Jim: O.K.
Billy: They pressed the button, Jim.
Jim: They pressed the button Billy, what button?
Billy: The big red one.
Jim: You mean the button?
Billy: Goodbye, Jim.
Jim: Goodbye! Oh yes, this ain’t au revoir, it’s goodbye! Ha! Ha!
Jim: This is KAOS. It’s a beautiful, balmy, Southern California sunny day. It’s 80 degrees... I said balmy... I could say bomby ... Ha! Ha! O.K. I’m Jim and this is Radio KAOS and with only four minutes left to us, let’s use this as wisely as possible...


Four Minutes: Uma grande canção, grandiosa, a mais próxima do que costumamos chamar de rock progressivo, destaque para a emocionada interpretação de Clare Torry, já famosa entre os fãs de Pink Floyd pela contribuição à extraordinária e soberba música “Great Gig in the Sky”. O mundo todo está apreensivo com a possibilidade de acontecer o fim do mundo, mas tudo não passa de uma armação de Billy e suas ondas de rádio...

The Tide is Turning: Um visceral manifesto anti-guerra encerra o álbum. Roger Waters soube mandar seu recado de forma definitiva particularmente nessa música, que tem um climão bastante parecido com o “The Wall”, o último grande disco de sua ex-banda, o que torna essa obra ainda mais nostálgica e inesquecível...

É muito difícil para um artista se livrar do rótulo “ex-integrante de tal banda”, mas pelo menos, principalmente nesse disco, Roger Waters conseguiu fazer um som com estilo próprio, muito aquém da genialidade mostrada durante seus anos de auge como baixista, vocalista e compositor do Pink Floyd, mas mesmo assim uma importante e interessante obra no sempre bem vindo contexto de rock and roll como grande gerador de discussões acerca da realidade que nos cerca, e da sempre presente ameaça de um conflito nuclear definitivo e avassalador...


Rafael Borges da Silva, 28 de abril de 2006

Gatto Marte - Danae (Italia, 1997)





1 – Corano
2 – Menestrelli
3 – Danae
4 – Bárbara
5 – 900
6 – Paris, Texas
7 – Fuga Semiótica
8 – Kindergarten
9 – Otto Spikin
10 – Il Castello
11 – La Bottega
12 – Belial


Nino Cotone – Violino e viola
Giuseppe Brancaccio – Fagote
Maximilian Brooks – Piano, teclados e vocais
Pietro Lusvardi – Contrabaixo
Jaime Castaneda – Bateria
Musicistas convidadas:
Maryam Soumare-Dahan – Vocais
Irina Solinas – Cello



Quando falamos de progressivo italiano, logo nos lembramos daquela enxurrada de bandas que surgiram nos 70’s deslavadamente influenciadas pelos ingleses e que não raro lançavam apenas um disco em sua meteórica carreira. Mas se quisermos nos deleitar com o que melhor e mais criativo aquele país produziu, acredito que se nos atermos ao que os italianos gravaram fora da vertente sinfônica do progressivo estaremos bem melhor servidos.

O Gatto Marte é “um quarteto italiano tocando composições originais influenciadas por música clássica e improvisações jazzísticas”, segundo o próprio site oficial da banda, e a grosso modo é isso mesmo – mas esta definição está bem longe de resumir sua tão peculiar sonoridade. O alicerce da sua música é a harmonia absolutamente impecável entre o piano, o violino e o fagote; é como se cada um estivesse improvisando deliberadamente e à parte dos outros músicos, mas de modo algum isso torna a música confusa ou difícil de entender. Em alguns momentos o clima é melancólico e sombrio, lembrando bandas mais conhecidas de R.I.O. como Univers Zero e Art Zoyd; em outros momentos nos remete àquelas alegríssimas festas italianas regadas a litros de vinhos e música folclórica; e o resultado é uma perfeita trilha sonora de cinema mudo, que se encaixaria tanto em algum melodrama como em alguma comédia de Charles Chaplin.

Nesse disco de estréia, “Danae”, gravado em abril de 1997 (e considerado um dos melhores discos daquele ano), o Gatto Marte produziu algo muito próximo do que conhecemos como “rock progressivo”, mas mesmo assim está muito além de qualquer rótulo ou definição; na verdade é mais uma estupenda singularidade da Música no seu sentido mais belo e agradável, uma legítima obra de arte com cacife para figurar entre as melhores de todos os tempos, que indubitavelmente agrada tanto apreciadores de música erudita quanto de vanguarda.



Rafael Borges da Silva, 16 de janeiro de 2007

Primus - Frizzle Fry (EUA, 1990)





1 - To Defy the Laws of Tradition (6:42)
2 - Ground Hog's Day (4:58)
3 - Too Many Puppies (3:57)
4 - Mr. Knowitall (3:51)
5 - Frizzle Fry (6:04)
6 - John the Fisherman (3:37)
7 - You Can't Kill Michael Malloy (0:25)
8 - The Toys Go Winding Down (4:35)
9 - Pudding Time (4:08)
10 - Sathington Willoughby (0:24)
11 - Spegetti Western (5:43)
12 - Harold of the Rocks (6:17)
13 - To Defy (0:36)


Les Claypool – Vocais, baixo e banjo
Larry LaLonde – Violão e guitarra
Tim “Herb” Alexander – Bateria e mini-órgão
Todd Huth – Guitarra
Matthew Wingar – Mini-piano


Em se tratando de Rock ‘n’ Roll, existe uma tendência crítica inevitável: quanto mais recente uma banda é, mais difícil é para ela ser criativa e inovadora, por que quanto mais o tempo passa e mais e mais bandas lançam mais e mais discos, tudo que é gravado na seqüência acaba carregando consigo uma bagagem de influências, tornando possível, quase sempre, definir um lançamento novo comparando-o com algum outro lançado anteriormente; e essa é uma tendência que só tende a ficar mais forte com o passar do tempo...

Apesar disso, existem aquelas bandas que, apesar de não passar de uma amálgama das bandas preferidas dos seus integrantes, conseguem se sobressair no meio da multidão que adora urrar que “veio pra revolucionar o gênero”, e acredito que um dos melhores exemplos surgidos nos anos 90 é o power-trio norte americano Primus. Liderada pelo irreverente baixista e vocalista Les Claypool, uma espécie de “Frank Zappa do baixo”, que se juntou ao guitarrista Larry Lalonde, oriundo do Possessed, para formar uma obscura banda de thrash chamada Blind Illusion, que lançou um único disco (muito bom por sinal) no final dos anos 80 chamado “The Sane Asylum”. Mas foi quando o extraordinário baterista Tim “Herb” Alexander completou o power-trio que o bicho pegou! Já com o nome Primus, soltam um discaço de estréia ao vivo, “Suck on This” (1988), que já dá um boa prévia do que viria. Dois anos depois, sai o primeiro petardo de estúdio, este Frizzle Fry.

É muito cômodo dizer que os Primus são um Rush menos sério, mas essa está longe de ser uma definição justa; enquanto o trio canadense sempre beirou o hard rock e o pop progressivo, o Primus conseguiu trilhar caminhos que foram muito além do que qualquer rótulo poderia pretender incluir. A sincronia dos três músicos é absurdamente perfeita, baixo e bateria frouxos, mas ao mesmo tempo pesadões, e a guitarra de Lalonde dando o climão heavy para contrapontear com o vocal sarcástico, bem humorado e às vezes meio feio e nasalado de Claypool; e o resultado final é um som diferente de tudo que já se gravou na História da música, graças à extrema competência e surpreendente criatividade de seus integrantes.

Considerar Frizzle Fry como o que de melhor o Primus fez vai depender do gosto do ouvinte, mas por se tratar do primeiro lançamento da banda, pode-se dizer que é o mais inventivo e influente de todos. Peso e precisão são dois elementos que não faltam em nenhuma das músicas, as esquisitices não soam exageradas em nenhum momento, por que são usadas não como um recurso, mas sim como parte da música, como se ela perdesse sentido se elas não estivessem lá. Claypool é um riffeiro extremamente criativo (ouça os riffs que ele criou para “To Defy the Laws of Tradition”, “The Toys Go Winding Down”, “Pudding Time” etc, e terá a certeza de que o cara sabe o que faz), sempre conseguindo tirar uma sonoridade diferente de seu instrumento; Lalonde consegue ir da leveza ao peso com uma facilidade impressionante (“em “Ground Hog’s Day” ele começa cheio de ginga para no final detonar tudo num heavy poderosíssimo), e a bateria hipnótica e certeira de Alexander (ele quase rouba a cena em “Mr. Knowitall”, performance magnífica) é um background impecável para essa piraceira toda. E as letras também merecem uma atenção especial: numa primeira audição elas podem soar meio confusas, mas com um pouco de insistência a mensagem que eles querem passar transparece; assim como as próprias músicas, que no começo podem parecer um pouco parecidas entre si, porém uma audição mais acurada revela que as composições são muito mais intrincadas do que se imaginara.

Depois desse muitíssimo bem sucedido debut, a banda lançou mais três obras igualmente relevantes: “Sailing on the Seas of Cheese” (talvez o mais famoso disco dos caras), em 1991; “Pork Soda”, em 1993, e “Tales from the Punchbowl”, em 1995 - todos eles com cacife para figurar entre o que de melhor se produziu nos anos 90. A banda passou por um período de crise (mas ainda de muita competência) a partir de 1997, com a saída do baterista Tim Alexander e a conseqüente substituição - mas o retorno deste em 2003, para o lançamento do ótimo projeto “Animals Should Not Try to Act Like People” (um EP e um DVD), prova que esse excelente power trio ainda tem, sim, muita lenha para queimar!



Rafael Borges da Silva, 1 de outubro de 2006

Franz Pomassl - Trail Error (Austria, 1996)





1 - Start Stutter
2 - Long Term Pipeline Defect I
3 - Gamma Knife
4 - Audible Prestepeller
5 - Panner
6 - Trial Run
7 - Pipeline
8 - Hmm
9 - Minor Feeder
10 - Critical Band
11 - Long Term Pipeline Defect II
12 - Spinal Tap


Franz Pomassl - Dispositivos Eletrônicos Diversos


Franz Pomassl não é apenas e tão-somente um músico; acima de tudo, ele é um estudioso.

O seu estudo se concentra nas bordas da percepção auditiva humana, com a pretensão de tentar expandí-la através dos tímpanos lançando mão de efeitos eletrônicos e sons naturais e acústicos, desses que todos estamos acostumados a ouvir por aí.

Em 1991, Pomassl terminou seus estudos no Instituto de Música Eletro-acústica e Experimental da Universidade de Música de Viena e, depois de uma série de pesquisas no Centro de Simulação de Terremotos, em Tóquio, Japão, lançou o disco “Trail Error”, em 1996. Vamos às músicas:

Start Stutter - Uma pequena vinheta introdutória de apenas um minuto de duração, na verdade é só um loop de sintetizador

Long Term Pipeline Defect I – O disco abre com uma faixa que segue praticamente o mesmo compasso, o som lembra o fogareiro de um balão, mas mais sujo. Os intervalos ficam cada vez menores, e quando a música pega o embalo, termina. É a menor faixa do álbum.

Gamma Knife – Clima de espaço sideral, mas com ruídos de maçarico e uma espécie de purpurina cósmica sendo levada em direção aos confins do cosmo. Lá pela metade da música começa a cair uma chuva cósmica ácida, e parece que uma nave espacial está sendo derretida por ela, com a ajuda de um enxame de mosquitos disparando raios laser.

Audible Pestrepeller – Ao contrário do que o nome sugere, essa música é inaudível, devido a um ruído agudíssimo e intermitente no fundo, que perpetra por boa parte da faixa. Mas em primeiro plano temos o som de um elevador estragado sendo consertado por uma nuvem de grilos metálicos e eletrônicos e suas brocas nanomaquinais.

Panner – Música absurdamente eletrônica e repetitiva, alternando o tempo todo entre os canais esquerdo e direito. A peça menos interessante do disco, a meu juízo.

Trial Run – O ritmo é repetitivo, mas os sons ficam em constante mudança. Vão do fogareiro de balão ao motor de geladeira velha.

Pipeline – Depois de tantos ruídos eletrônicos, finalmente um momento de natureza: essa música consiste apenas e tão somente ao som numa praia num dia de maré alta e ventos acima de 100 km/h.

Hmm - Uma espécie de sinal telefônico dos infernos, fragmentado por ruídos eletrônicos diversos, interrupções e distorções analógicas.

Minor Feeder – Música com um clima mórbido e assustador, alcançando a fusão perfeita de sons eletrônicos e desesperadores com ruídos repetitivos e metálicos, como se ela estivesse sendo tocada dentro de um hangar com paredes de alumínio situado no meio de uma tempestade noturna de areia no deserto.

Critical Band – Mais uma com o ruído insuportável, mas desta vez sendo explorado até o limite da criatividade, com diferentes ritmos e arranjos.

Long Term Pipeline Defect II – A maior faixa do álbum, que na verdade é só uma versão estendida da faixa de abertura. Alguns indivíduos nerds costumam apreciar esse tipo de simetria.

Spinal Tap - E, para encerrar, como querendo dar um definitivo parecer da proposta do disco, depois de tanta eletrônica eficaz, a faixa em questão apresenta-se com defeito, sendo impossível sua execução... O feitiço se volta contra o feiticeiro icon_neutral.gif ...

Enfim, um disco altamente recomendado para amantes de música experimental, ou simplesmente para pessoas interessadas na expansão de seus sentidos...


Rafael Borges da Silva, 7 de março de 2006

Jethro Tull - Stormwatch (Inglaterra, 1979)





1. North Sea Oil (3:11)
2. Orion (3:58)
3. Home (2:45)
4. Dark Ages (9:14)
5. Warm Sporran (3:35)
6. Something's On The Move (4:27)
7. Old Ghosts (4:23)
8. Dun Ringill (2:42)
9. Flying Dutchman (7:45)
10. Elegy (3:34)


Formação:

Ian Anderson - Flauta, violão, baixo e vocal
Martin Barre - Guitarra, mandolin, classical guitar
Barriemore Barlow - bateria e percussão
John Glascock - baixo nas músicas "Orion", "Flying Dutchman" e "Elegy" e vocal
John Evans - Piano e órgão
David Palmer - Sintetizadores, órgão portátil e arranjos de orquestra



O ano de 1979 não foi um dos mais frutíferos para o rock progressivo, e no caso do Jethro não foi diferente. Se na primeira metade dos 70's eles só lançaram obras primas, a segunda metade foi um periodo incerto e meio perdido. Pode-se dizer que esse "Stormwatch" foi seu último suspiro de inspiração, o canto do cisne da banda, que a partir daí só teve lançamentos de qualidade duvidosa.

Apesar de não ser um disco conceitual (as letras são realistas, mas não tratam necessariamente do mesmo tema), é notável o clima gelado e escuro que perpetra no decorrer das faixas. A flauta do Ian Anderson definitivamente não é a estrela principal, mas todos sabem a capacidade de criar belos riffs no intrumento do cara; a guitarra de Martin Barre não estava das mais inspiradas, mas ainda extremamente competente, roubando a cena várias vezes; e o que dizer do baixo de John Glascock, que lamentavelmente faleceu depois de uma cirurgia cardíaca durante as gravações do disco, sendo substituído pelo próprio Ian Anderson? Na minha opinião é o melhor baixista que já passou pelo Tull, a performance do cara nas três músicas que ele tocou nesse disco é perfeita, o seu intruemento soa pesadíssimo, sincronizado, preciso, empolgante, saturado, e o quebra galho do Ian Anderson é surpreendente, sem dúvida o baixo é a base de todas as músicas, junto com os arranjos de orquestra de David Palmer e do quarteto de cordas. Sem falar na bateria de Barriemore Barlow, como sempre excelente, esse entendia de progressivo!

Mas apesar da competência indiscutível desse line up, falta inspiração nas composições e elas acabam soando meio cansativas e insossas, um tanto frias até - mas é exatamente aí que reside a personalidade do disco, tornando-o uma obra única na carreira da banda. E é notável a simetria entre as músicas do lado A com a do lado B, basicamente eles são assim: um rock n roll, um mini épico, uma balada, um épico e uma instrumental.

O disco abre com "North Sea Oil", construída em cima de um grandioso riff de guitarra, que se encaixa perfeitamente com a flauta, um dos momentos mais rocker do album. "Orion" é uma balada épica com um belo refrão, mas é depois da bela "Home" que vem o verdadeiro épico: "Dark Ages". Essa sim uma autêntica grande música, forte, séria, com um clima de tempestade de gelo no pólo norte, com um refrão arrepiante, na minha opinião o grande momento do disco. A instrumental quase dançante "Warm Sporran" (ô nomezinho desgraçado) fecha o lado A.

"Something on the Move" é um rock n roll simples, mas intenso, daqueles bem característicos, que só o Jethro sabia fazer - com destaque para o empolgante riff de flauta. "Old Ghosts" é mais uma música séria, com uma bela letra, confiram. Depois da estranha (e excelente) balada "Dun Ringill" vem o grande épico do lado B, "Flying Dutchman", mas muito aquém do anterior "Dark Ages". Para encerrar, uma pequena e melancólica canção instrumental, "Elegy".

Colocar esse disco como um dos melhores do Jethro Tull pode ser exagero, mas se formos analisar tudo que veio depois vamos acabar considerando esse Stormwatch um ótimo disco, e realmente o é, basta ouvir descompromissadamente, sem comparar com as obras de arte do início da carreira da banda - apesar de que há aqui muitos elementos de discos anteriores, mas nem por isso é um disco derivativo. É , sim, um disco único na carreira dessa que foi uma das melhores bandas da história do rock progressivo, para constar na estante e de lá ser retirado quando der vontade de ouvir um disco denso, pesado e gelado. She wores a black tiara...


Rafael Borges da Silva, 13 de abril de 2007

Faith no More – Angel Dust (EUA, 1992)





1 - Land of Sunshine
2 - Caffeine
3 - Midlife Crisis
4 - RV
5 - Smaller and Smaller
6 - Everything's Ruined
7 - Malpractice
8 - Kindergarten
9 - Be Aggressive
10 - A Small Victory
11 - Crack Hitler
12 - Jizzlobber
13 - Midnight Cowboy
14 - Easy
15 - As the Worm Turns

Mike Patton – vocal
Jim Martin – guitarra
Billy Gould - baixo
Roddy Bottum - teclado
Mike Bordin – bateria

“A vida parece valer a pena pra você?”, urde um inspiradíssimo Mike Patton já na faixa de abertura do seu segundo disco a frente do Faith no More, a melhor banda que a chamada bay area (região da Califórnia berço de bandas de thrash) já pariu, na minha modestíssima opinião. Mas diferente do que aconteceu em seu disco de estréia, o aclamado “The Real Thing” (1988), neste Angel Dust Mr. Patton, vocalista grandiloqüente saído da insana Mr. Bungle, mostra de fato a que veio, exibindo toda a potência de seu inusitado vocal, que vai do death maniac gutural ao radio thrash melodical (passando pelo metal, rap e funk) com uma facilidade impressionante, às vezes fica difícil de acreditar que o que se ouve esteja mesmo saindo de uma garganta humana.

Mas além de um extraordinário vocalista, Mike Patton é também um músico genuinamente criativo, e o fato de ele ter encabeçado as composições desse disco o torna o mais genial de toda a discografia da banda, mostrando uma faceta mais macabra e aterradora e assumindo uma postura anticomercial perante a mídia (que paradoxalmente pode ter sido uma forma de chamar mais atenção). E de fato esse disco fez menos sucesso comercial do que o anterior, que continha o surrado hit “Epic” (que de fato é uma grande música, mas muito aquém do que a banda é capaz de fazer), mas ainda assim teve grande aceitação no mundo todo, em especial no Brasil, talvez o país com a maior quantidade de fãs que a banda já teve.

Mas seria uma injustiça deixar todo o mérito desta obra para Mike Patton. A cozinha - formada pelos membros fundadores Mike Bordin (baterista que atualmente toca na banda do Ozzy), Billy Gould (baixista que sempre foi o principal responsável pelo fundo pesadíssimo das músicas) e o tecladista Roddy Bottum, que atualmente lidera uma interessantíssima e muito competente banda de punk rock bubble gum new wave chamada Imperial Teen – dá o clima de pesadelo sônico perfeito para a performance de Patton. Pra completar, temos o famoso guitarrista Jim Martin, que apesar de nessa época já não estar muito afinado com a banda e não ter participado em praticamente nada no processo criativo do disco, contribui com magníficos riffs “iommianos” e belíssimos solos recheados de efeitos.

As músicas de maior sucesso comercial e campeãs de execuções em rádios e na MTV foram A Small Victory, Midlife Crisis e Everything’s Ruined, todas com certeza excepcionais, mas no lado obscuro do álbum é que reside o mais surpreendente e atemporal da obra. Em RV (tô pra descobrir o que significa essa porra de sigla), Patton encarna um pai de família americano desiludido da vida abusando do seu vocal mais “sinatresco”; Be Agressive lança mão de um coral infantil que lembra um grito de guerra de torcida norte americana, com aquelas moças de saia rodada e pompom usando o corpo para fazer as letras do nome do time); na caótica Malpractice (única música inteiramente composta por Patton), o brado “APPLAUSE!!! APPLAUSE!!! APPLAAAAAAAUSE!!!” quando tocado no último volume é capaz de derreter o cérebro de vizinhos crentes e caretões – assim como a nefasta Jizzlobber, composição de Jim Martin. Impossível não ficar impressionado com a performance do Mike Patton no refrão “I hide my dirty minutes under the dirty mattress and they are making me iiiiiiiiiiiiiitch... my time! is spilt miiiiiiiiiiiiilk!!!!!!!!”, de uma intensidade quase alienígena!

Ainda não conhece esse disco? Ainda está em dúvida se vale a pena? Ainda está pensando se a tua vida vale a pena, como foi indagado no começo da resenha? Acha que o Faith no More é só a baladinha “Easy”? Aí é mudomadifissu!


Rafael Borges da Silva, 18 de julho de 2007

Black Sabbath – Born Again (Inglaterra, 1983)




1 – Trashed
2 – Stonehenge
3 – Disturbing the Priest
4 – The Dark
5 – Zero the Hero
6 – Digital Bitch
7 – Born Again
8 – Hot Line
9 – Keep it Warm


Ian Gillan – vocais
Tony Iommi – guitarras, efeitos e flauta
Geezer Butler – baixo e efeitos
Bill Ward – bateria
Geoff Nicholls – teclado



Eu gosto de imaginar que a idéia de fazer esse disco tenha surgido da seguinte maneira: Tony Iommi e Ian Gillan sentados em um boteco qualquer entornando doses e mais doses de alguma bebida alcóolica (principalmente tequila) para afogar as mágoas e conversar sobre o momento atual de suas respectivas carreiras - de um lado Gillan desiludido por causa do fracasso de sua carreira solo, e Iommi meio perdido depois da demissão de Dio do Black Sabbath (reza a lenda que ele teria sabotado as fitas originais do disco ao vivo “Live Evil” para que seu vocal ficasse mais alto do que os instrumentos) - ou seja, dois monstros sagrados da História do rock n roll que de repente se viam sem rumo. Até que, lá pela vigésima rodada, alguém teria exclamado: “Vamos fazer o Black Sabbath nascer de novo!!!”. Mas também pode ter sido apenas uma idéia saída da mente de algum produtor musical avarento...

Mas o que importa é que esses dois se juntaram aos membros sabáticos originais Geezer Butler e Bill Ward (este último de volta à banda depois de ter sido substituído por Vinnie Appice no disco anterior, “Mob Rules”, seqüelado e com problemas de saúde decorrentes do álcool, aliás, problemas esses que nem permitiram que ele tocasse na Born Again Tour, tendo que ser mais uma vez substituído, dessa vez por Bev Bevan, do ELO) e viriam a lançar o que seria um dos álbuns de heavy metal mais cultuados de todos os tempos pelos verdadeiros fãs do gênero. Apesar de todas as críticas que ele recebeu e recebe até hoje, principalmente por causa da produção tosca (foi gravado só em quatro canais, e com um fusível da mesa de gravação queimado), é sim um clássico incontestável. Realmente a qualidade do som deixa a desejar, mas e daí? Estamos falando de um disco do Black Sabbath, quem disse que precisa ser limpinho e impecável? Deixemos isso pra Britney Spears e Lauryn Hill! Só concordo no que diz respeito à bateria, que soa meio oitentista demais, mas nada que chegue a atrapalhar o resultado final.

E que resultado! Será que alguém discorda que o Tonmy Iommi seja o melhor criador de riffs heavy metal que já pisou na face da Terra? Gillan assumiu todas as letras, e fez um ótimo trabalho, mas o que matou a pàv mesmo foi, é claro, o seu vocal. É como se ele tivesse sido “endorcisado” (será que essa palavra existe?) para que de sua garganta saísse o que de mais extremo e visceral pudesse sair, e o que podemos ouvir são performances que nem em seus momentos mais grandiloqüentes a frente do Deep Purple ouvimos – e com tudo soando extremante coeso, como se essa formação já tivesse tocado junto há anos.

E não bastasse a evidente competência dos músicos, a criatividade também estava em alta. Muitas músicas superam, e em muito, algumas da indefectível era Ozzy. “Trashed” é o petardo que abre o sabá, falando sobre um acidente de carro que Gillan sofreu, obviamente encharcado de birita, com o carro do Bill Ward. “Stonehenge” é uma viagem instrumental de Iommi que humilha qualquer “Fluff” ou “FX” da vida em se tratando de clima macabro e perturbador, introdução para a endiabrada “Disturbing the Priest” , inspirada em um padre que teria reclamado do barulho infernal que a banda estava fazendo durante as sessões de gravação. Na seqüência, depois de outra viagem instrumental, “The Dark” , surge das profundezas “Zero the Hero” , com uma levada que lembra um pouco o rap, mas com um riff avassaladoramente pesado, tipicamente sabbatiano. Hora de fazer o sinal da cruz e colocar o lado B: “Digital Bitch” , que seria uma espécie de “homenagem” a esposa do Ozzy, Sharon, tem um dos melhores riffs do disco, absolutamente perfeito. Depois temos a faixa título, uma balada épica e viajante, com uma atmosfera bastante melancólica, de arrepiar! Na seqüência a quase hard rock “Hot Line” , talvez a que mais se aproxima do estilo Deep Purple, e encerrando com “Keep it Warm” , outra balada com clima “fim-de-festa”, ou no caso “fim-de-sabá-demoníaco”.

É desesperadoramente lamentável que essa formação tenha durado apenas um disco, principalmente se lembrarmos que o Ian Gillan abandonou o Sabbath para se reunir com seus amiguinhos do Purple Mark II e gravar o disco “Perfect Strangers”, que até é bom, mas trocar “I’ll take your soul to plant my seed” por “my belly is aching” foi de moer... Mas pelo menos foi O disco, uma obra prima essencial, indispensável, enfim, imortal!


Rafael Borges da Silva, 13 de setembro de 2007

Aphrodite's Child - 666 (1971 - Grécia)





Disco 1

1 – The System
2 – Babylon
3 – Loud Loud Loud
4 – The Four Horsemen
5 – The Lamb
6 – The Seventh Seal
7 – Aegian Sea
8 – Seven Bowls
9 – The Wakening Beast
10 – Lament
11 – The Marching Beast
12 – The Battle of the Lacusts
13 – Do It
14 – Tribulation
15 – The Beast
16 – Ofis

Disco 2

1 – Seven Trumpets
2 – Altamont
3 – The Wedding of the lamb
4 – The Capture of the Beast
5 – Infinity Symbol
6 – Hic and Nunc
7 – All the Seats Were Occupied
8 – Break



Vangelis Papathanassiou: Órgão, piano, flauta, percussão e backing vocals
Demis Roussos: Baixo, vocais e backing vocals
Lucus Sideras: Bateria, vocais e backing vocals
Silver Koulouris: Guitarras e percussão

Músicos Convidados:

Harris Halikitis: Baixo, saxofone tenor, conga e backing vocals
Michel Ripoche: Trombone, saxofone tenor
John Forst: Narração
Yannis Tsarouchis: Texto grego
Irene Papas: Vocais em "Infinity Symbol"


Em um dos trechos do Apocalipse, o último livro da Bíblia, é anunciado que qualquer um que tiver inteligência seria capaz de reconhecer o número da Besta, por se tratar de um número humano, e esse número seria: seiscentos e sessenta e seis. Mas por que esse número? Alguns teólogos acreditam que, assim como o número da perfeição seria o 7, o 666 seria um símbolo da “quase-perfeição”. Agora, pra assimilar esse anúncio, teremos que usar toda a nossa inteligência (e criatividade), para não sermos surpreendidos quando a hora do Juízo Final chegar... Uma das associações mais criativas que já tive notícia foi com a sigla da World Wide Web (WWW), que lembra o número 666 em algarismos romanos: VIVIVI. Será Bill Gates o anti-cristo???

Mas enquanto o fim do mundo não chega, esse número (e outras preconizações estapafúrdias da Bíblia) têm sido usados a torto e a direito por aí, inclusive por bandas de rock e heavy metal. Mas o Aphrodite’s Child, banda formada na mitológica Grécia e liderada pelo famoso “tecladista-ambiente” Vangelis (que mais tarde chegou a gravar com outros músicos progressivos, como o Jon Anderson, do Yes), não utilizou-se exclusivamente do livro sagrado dos católicos para fazer esse disco conceitual, e sim de uma obra do escritor Costas Ferris. O livro conta a história de uma trupe circense que encena o próprio Apocalipse com acrobatas, dançarinas, tigres, leões, etc... em um grandiosíssimo espetáculo de luzes e fogos de artifício. Mas eis que, certo dia, durante uma dessas apresentações, do lado de fora da lona, acontece o verdadeiro fim do mundo...

Esse disco é, sem sombra de dúvidas, o trabalho mais rebuscado, intrincado, complexo e a frente de seu tempo que o Aphrodite’s Child já gravou, bem superior ao que a banda (e o próprio Vangelis) fizeram posteriormente – tanto que quem conhecer outros trabalhos deles depois de ouvir esse “666” com certeza vai ter uma decepção e tanto. Nesse excelente álbum duplo, o Aphrodite’s Child lança mão de longos solos instrumentais, citações em grego, corais celestiais (e as vezes infernais), e outros artifícios comuns (e outros tantos absolutamente únicos) para a época - 1971, provavelmente o ano mais experimental da História do Rock Progressivo – para fazer uma obra espetacular, com toda a grandiosidade - e ao mesmo tempo sutileza - de uma tragédia grega, como se a banda estivesse tocando num picadeiro cercado por uma multidão em polvorosa. O encarte do disco tem uma citação caretona (ou sarcástica): “Este disco foi gravado sob a influência de sahlep”, se referindo a uma bebida que não tem nenhum poder alucinógeno, é tomado no café da manhã pelos gregos mais pobres...

Drogado ou não, Vangelis teve aqui o momento de maior inspiração de toda a sua carreira, combinado rock progressivo com outros elementos de world/soul/tribal music, krautrock, space/psychedelic rock, etecétera, ao longo do disco (com destaque para o vocal do baixista Demis Roussos nas excelentes melodias de “Babylon” e “The Four Horsemen”, da gradeloqüente e orgásmica (!) participação de Irene Papas em “Infinity Symbol”, e para os belíssimos momentos instrumentais proporcionados principalmente pela viajante (e competetente) guitarra de Silver Kolouris), para no final fundir-se na extraordinária suíte “All the Seats Were Occupied”, quase vinte minutos da verdadeira música dos quintos do infernos, como o diabo gosta!!!


Rafael Borges da Silva, 2 de agosto de 2006

Syd Barrett – The Madcap Laughs (Inglaterra, 1970)





1 - Terrapin
2 - No Good Trying
3 - Love You
4 - No Man's Land
5 - Dark Globe
6 - Here I Go
7 - Octopus
8 - Golden Hair
9 - Long Gone
10 - She Took A Long Cold Look
11 - Feel
12 - If It's In You
13 - Late Night

Syd Barrett - guitarra, violão e vocais
Mike Ratledge - teclado
Vic Seywell - instrumentos de sopro
John Wilson - bateria
David Gilmour - baixo e guitarra
Hugh Hopper - baixo
Roger Waters - baixo
Robert Wyatt - bateria


Syd Barrett não precisou de muitos discos para entrar no seleto grupo de rockeiros considerados gênios da música: na verdade, se tivesse lançado só o “Piper at the Gates of Dawn” – primeiro disco do Pink Floyd e único em que ele participou integralmente – com certeza já teria sido digno desse “título”. Mas eis que, com a ajuda de alguns membros do Soft Machine, Humble Pie e do próprio Pink Floyd, resolve pegar composições antigas, juntar com algumas novas e lançar seu primeiro disco solo, esse “The Madcap Laughs”.

Apesar das músicas aparentemente simples, em se tratando de arranjos e virtuoses instrumentais, esse foi um disco dificílimo de ser gravado, devido à cada vez mais acentuada esquizofrenia de Syd, que somada ao uso exagerado de ácido o tornavam cada vez mais uma pessoa distante de tudo e de todos, como se mesmo cercado de tantos músicos, ele estivesse gravando o disco sozinho. Pode-se imaginar a dificuldade dos outros músicos no estúdio em acompanhar as mudanças constantes de ritmo e tempo das composições de Syd. Talvez se os produtores não se preocupassem tanto em enfileirar várias músicas psicodélicas, cada uma com seu começo, meio e fim, o resultado final teria sido uma colagem sonora que teria muito mais a cara de Syd, mas sempre existe a preocupação com o mercado, mesmo que pra isso a personalidade original de uma obra acaba se diluindo.

Mas o resultado final foi sem dúvida espetacular. A capacidade de fazer músicas estranhas, mas ao mesmo tempo de fácil assimilação, é um talento muito pessoal de Syd Barrett. Não temos aqui muito que lembre a destruição sonora de uma “Interstellar Overdrive”, por exemplo,. O clima que permeia o álbum é de um minimalismo sutil e emocionante, faz o ouvinte se sentir sentado do lado de Syd no pátio da sua casa. O seu vocal é por vezes exausto, outras vezes empolgado, mas quase sempre esquisito; e as melodias nem podem ser classificadas como pop, ou rock, ou que for: são psicodélicas, simplesmente. E além de um extraordinário compositor, ele também era um excepcional letrista. O romantismo é o assunto quase predominante, porém nunca caindo no lugar comum; não há aqui frases surradas ou óbvias: Syd se deslumbra com a felicidade do amor correspondido e se emociona com a tristeza do amor perdido como um poeta que sentiu na pele essas emoções, mas na verdade ele era apenas uma pessoa sensível que sabia expressar bem as maluquices que passavam na sua cabeça, mas parece que cada vez mais ele foi perdendo o interesse em fazê-lo...

Quatro anos depois outro disco foi lançado, mas esse é sem dúvida seu melhor trabalho solo, um registro eterno deste que foi um dos artistas mais revolucionários e carismáticos que o rock já viu, e que nos deixou no dia 7 de julho de 2006, depois de passar anos recluso da sociedade apenas cuidando de suas plantas; mas a influência de sua curtíssima carreira artística continua até hoje sendo referência para qualquer pessoa que queira levar um estilo de vida paralelo à mesmice e caretice, e provando como é possível ser genial apenas abrindo as portas da mente e deixando os pensamentos fluírem sem restrições. SHINE ON YOU CRAZY DIAMOND!!!


Rafael Borges da Silva, 27 de dezembro de 2007

Captain Beyond – Captain Beyond (EUA, 1972)





01 - Dancing Madly Backwards (On A Sea Of Air)
02 - Armworth
03 - Myopic Void
04 - Mesmerization Eclipse
05 - Raging River Of Fear
06 - Thousand Days Of Yesterday (Intro)
07 - Frozen Over
08 - Thousand Days Of Yesterdays (Time Since Come And Gone)
09 - I Can’t Feel Nothin’ (Part I)
10 - As The Moon Speaks (To The Waves Of The Sea)
11 - Astral Lady
12 - As The Moon Speaks (Return)
13 - I Can’t Feel Nothing (Part 2)

Rod Evans – vocais
Larry Reinhardt – guitarras
Lee Dorman – baixo, piano, backing vocals
Bobby Caldwell – bateria, percussão, vibes, sinos, piano e backing vocals



Estou agora na terceira audição consecutiva desse álbum, na tentativa de achar algum motivo para não considerá-lo o melhor disco de Hard Rock da História: e não consegui. Mesmo colocando-os ao lado de nomes como Deep Purple, Led Zeppelin e tantos outras mega-famosas, o que essa banda relativamente desconhecida do grande público gravou aqui é de uma perfeição absurda, que vai além de qualquer tentativa de mensuração. Não seria exagero dizer que nos trinta e cinco minutos de duração desse disco estejam presentes alguns dos melhores riffs já criados na história do Rock ‘n’ Roll – aliás, nenhum comentário que se faça a respeito dele é exagero; sim, ele é tão bom assim, sim. Alguns o consideram Hard Prog, mas aí é questão de ponto de vista, pra mim é apenas Hard Rock extremamente bem composto e bem tocado – viajando um pouco eu diria que é um disco Rock Progressivo conceitual e seu tema é justamente o Hard Rock. :stoned:

E os responsáveis por tal maravilha sonora são músicos já experientes e com um belo currículo: Rod Evans, excepcional cantor e membro fundador do Deep Purple que participou apenas dos seus três primeiros (e um pouco subestimados) discos, e o não menos que excelente baterista Bobby Caldwell, vindo da banda de Johnny Winter, assinam todas as composições. Larry Reinhardt e Lee Dorman, respectivamente guitarrista e baixista do pesadíssimo (para a época) Iron Butterfly, completam a formação, acrescentando o peso que se complementa tão bem com as composições de Evans/Caldwell. Difícil dizer qual teve o melhor desempenho, digamos que o mérito pela altíssima qualidade das músicas pertença aos quatro, sem medo de cometer injustiça com ninguém.

Pode-se dizer que o disco se divide em três suítes, com várias mudanças de andamento e de ritmo dentro de cada parte de cada uma delas, e todas as mudanças são extraordinárias, não há altos e baixos, é daqueles discos pra se ouvir do começo ao fim e não só porque todas as músicas são ótimas; na verdade cada segundo do álbum é muito bom, tudo se encaixa tão perfeitamente, os momentos pesados com os viajantes, passagens bucólicas de repente cortadas por um riff matador, e a versatilidade do vocal do Rod Evans sendo colocada à toda prova, e o resultado final agrada tanto fãs de Hard Rock quanto de Progressivo Psicodélico e Space Rock, ou qualquer outra pessoa que saiba o que é bom!

Agora, o único problema: os caras deram tudo de si para gravar esse disco, tanto que nunca conseguiram chegar perto de fazer algo tão genial. Mais dois discos foram lançados, mas servem apenas como curiosidade, não chegam nem aos pés do impacto e magnitude desse primeiro registro – mas nem precisava, depois de uma contribuição dessas para o Rock ‘n’ Roll seria até injusto exigir mais alguma coisa deles. O que importa é que com apenas um disco colocaram seu nome eternamente junto aos melhores de todos os tempos, e essa legítima obra-prima será lembrada e venerada por todo o sempre. E além.


Rafael Borges da Silva, 21 de fevereiro de 2008

David Bowie - Low (Alemanha, 1977)





1. Speed Of Life
2. Breaking Glass
3. What In The World
4. Sound And Vision
5. Always Crashing In the Same Car
6. Be My Wife
7. A New Career In A New Town
8. Warsawa
9. Art Decade
10. Weeping Wall
11. Subterraneans

David Bowie – vocais, guitarra, pump bass, saxofones, xilofones, vibrafones, gaita de boca, percussão pré-arranjada, teclados: sintetizador ARP, piano, Chamberlin (creditado no encarte do álbum com "tape strings", "tape-cello" e "tape-horns")
Brian Eno – vocais, splinter Minimoog, report ARP, guitar treatments, piano, teclado, sintéticos, Chamberlin, outros sintetizadores
Carlos Alomar – guitarra base
Dennis Davis – percussão
George Murray – baixo
Ricky Gardiner – guitarra
Roy Young – piano, órgão Farfisa
Peter Himmelman – piano, sintetizador ARP
Mary Visconti – backing vocals
Iggy Pop – backing vocals em "What in the World"
Eduard Meyer – cellos


Não, esta não é uma resenha pra glorificar a genialidade de David Bowie nem pra babar o seu ovo dizendo que ele foi um dos performers mais criativos e revolucionários da História da música (apesar de eu concordar com isso), e sim para chamar a atenção para o tecladista convidado para participar de um de seus melhores discos: Brian Eno.

Em 1977, Eno já não era apenas o ex-tecladista do Roxy Music: era um músico ambient que utilizava-se de apetrechos eletrônicos e não estava nem aí para o movimento punk e sua filosofia “Faça Você Mesmo” – e apesar de nessa época estar produzindo discos do Iggy Pop e mesmo o acompanhando anonimamente em turnês como tecladista, Bowie resolveu se mudar para Berlim e conceber o que seria o seu primeiro disco descaradamente influenciado pelo rock alemão. O próprio título (“Baixo”) já meio que antecipa o que ouviremos quando o colocarmos pra tocar: um disco gelado, “pra baixo”, algo depressivo e angustiante, próprio para embalar os momentos mais sofridos da famosa drugie Cristiane F. ...

É notável a maneira como o disco vai ficando cada vez mais experimental com o decorrer das faixas. Speed of Life abre o disco com um melodia lindíssima, um exemplo bem sucedido da mistura de guitarras elétricas com efeitos eletrônicos. É como uma vinheta instrumental de abertura para uma das melhores canções do disco, Breaking Glass, que mesmo com menos de dois minutos de duração poderia resumir o que de melhor a dupla Bowie/Eno já fez. What in the World já é uma música típica de Bowie, assim como Sound and Vision, esta última um dos maiores hits de sua carreira – mas mesmo nessas canções que parecem mais “normais” a mão de Eno está lá, fazendo a diferença. Always Crashing in the Same Car volta ao tom monótono e hipnótico típico da ambient music, que abre caminho para a excelente Be My Wife, uma típica grande música do Camaleão do Rock.

Ao virarmos o disco e colocarmos a agulha no começo do lado B :veio: , depois da sugestiva A New Career in a New Town, nos deparamos com a música mais low do disco: Warsawa. Instrumental e com uma melodia tristíssima, inspiração para as bandas de pós-punk como Joy Division (que aliás se chamava “Warsaw” no início da carreira) – ou seja, David Bowie e Brian Eno conseguiram lançar um disco que influenciou o movimento que viria a ser o decorrente da morte de um movimento que estava nascendo, o punk. Talvez porque eles eram músicos tão geniais que chegavam a ser visionários, ou simplesmente por sorte mesmo... As três canções seguintes, Art Decade, Weeping Wall e Subterraneans, também instrumentais, lembram muitos os discos da carreira solo de Eno, praticamente não se ouvem traços de Bowie, apenas alguns de seus backing vocals mais macabros e sinistros, como se o lado A fossem criações de Bowie com a participação de Eno e no lado B, criações de Eno com a participação de Bowie.

No fim, parece até injusto não constar o nome de Eno na capa, mas esse é um mero detalhe que não desmerece em nada essa legítima obra-prima, que pode não ser a mais revolucionária de todas (nos anos 70 o experimentalismo alemão não tinha limites, principalmente no que se tratava do uso de efeitos eletrônicos), mas sem dúvida uma das melhores e mais importantes.


Rafael Borges da Silva, 18 de setembro de 2008

The Who - Sell Out (Inglaterra, 1967)





1 - Armenia City in the Sky
2 - Heinz Baked Beans
3 - Mary Anne with the Shaky Hand
4 - Odorono
5 - Tattoo
6 - Our Love Was
7 - I Can See for Miles
8 - I Can't Reach You
9 – Medac
10 – Relax
11 - Sunrise
12 - Rael 1
13 - Rael 2
14 - Glittering Girl
15 - Melancholia
16 - Someone's Coming
17 - Jaguar
18 - Early Morning Cold Taxi
19 - Hall of the Mountain King
20 - Girl's Eyes
21 - Mary-Anne with the Shaky Hand (versão alternativa)
22 - Glow Girl



Roger Daltrey - vocais
John Entwistle – baixo, vocais e metais
Keith Moon – bateria e vocais
Pete Townshend – guitarra, vocais e órgão em "Silas Stingy"
Al Kooper – órgão



1967 foi um ano chave para o rock ‘n’ roll: toda banda que se prezava lançou um disco recheado das mais piradas experimentações psicodélicas para transcender a música que era feita até então. Substâncias alotrópicas alargadoras das válvulas de estrangulamento de pensamentos eram arroz-de-festa em qualquer sessão de composição e gravação. Foi naquele ano em que surgiram várias bandas que na década seguinte lançariam algumas das maiores obras-primas do rock progressivo, e outras tantas que só lançaram um disco, muitas vezes o suficiente para colocar seus nomes para sempre na história do rock.

Pois eis que, no meio dessa loucura toda, os ingleses do The Who, que já haviam lançado o que para muitos, foi o primeiro disco de punk da história, em 1965, o clássico “The Who Sings My Generation”, para em seguida lançar a mini-ópera “A Little One”, era uma fábrica de singles que estava se aproveitando da sua popularidade para gravar alguns jingles para a TV e o rádio. Diante da “moda” de ser psicodélico, eles decidem fazer do seu terceiro disco uma obra conceitual, cujo tema foi justamente o consumismo.

O disco “The Who Sell Out” (The Who se vende), irônicamente, não foi um sucesso de vcndas. Nem o único single do disco, a espetacular “I Can See For Miles”, alcançou o sucesso esperado. Apesar disso, trata-se indiscutivelmente de um dos discos mais importantes desse pirado ano de 1967.

Escutar esse disco é como escutar uma rádio pirata, com vinhetas da Radio London e trechos de jingles, alguns não autorizados e que acabaram gerando alguns processos contra a banda. Mas o que aumenta a impressão de se estar ouvindo uma rádio é principalmente a criatividade das composições, tão diferentes umas das outras que dão a nítida impressão de que as músicas não foram tocadas pela mesma banda.

Mas analisemos o disco musicalmente e independentemente de toda essa onda psicodélica que imperava na época. A abertura, com “Armênia City in the Sky”, feita por um empregado e motorista de Pete Townshend, lança mão de afiadíssimos efeitos de guitarra que já deixam bem claro que o que está para se ouvir é um disco de rock psicodélico, e dos bons! Depois da estranhíssima "Heinz Baked Beans", feita para um comercial de feijões, temos a extraordinária canção acústica "Mary Anne with the Shaky Hand". Depois da não menos que excelente “Odorono”, nome de um revolucionário desodorante feminino (o primeiro fabricado especificamente para mulheres), mais um grande clássico: “Tattoo”, executada regularmente em shows nos anos seguintes. “Our Love Was” é um exemplo perfeito de canção romântica rockeira, que precede a supracitada “I Can See For Miles”, certamente um dos pontos altos do disco, a bateria cavalgante e incansável de Keith Moon, a pesadíssima linha de baixo de Entwistle, a guitarra econômica e precisa de Pete Townshend, e o vocal épico do Roger Daltrey, tudo funcionando na mais perfeita harmonia, uma música única e absolutamente perfeita! “I Can’t Reach You” é uma canção típica “thewhoana”, simples mas ótima; “Medac” é mais uma vinheta de John Entwistle, “Relax” e “Silas Stingy” são dois belos exemplos de como Townshend, além de um excepcional guitarrista, também manda muito bem no órgão. A emocionante “Sunrise” é uma lindíssima balada que quase ficou de fora porque não agradou a Keith Moon, e em seguida temos a mini-ópera “Rael”, uma pequena amostra do que viria no disco seguinte, “Tommy”. “Melancholia” é uma balada tão bela quanto a “Sunrise”, mas ainda mais triste; “Someone’s Coming” é uma ótima composição de Entwistle que é um exemplo perfeito do uso de metais em canções rock ‘n’ roll. “Jaguar” conta com Keith Moon nos vocais, e é impressionante o modo como a bateria se encaixa no riff de guitarra, uma música pesadíssima para a época, assim como a instrumental “Hall of the Mountain King”, repleta de risadas demoníacas e uivos fantasmagóricos. O disco ainda conta com “Glittering Girl”, canção típica sessentista, e “Girl’s Eyes”, composição de Keith Moon, mais típica ainda – e tudo isso intercalado com vinhetas de rádio e trechos de singles, com destaque para “Top Gear”, no final de “Rael 2”, e do pesadíssimo jingle da Coca-Cola no final de “Glittering Girl”.

“The Who Sell Out” pode ser definido como um disco comercial sim, já que naquele ano ser experimental significa “se vender”, mas o fato de ele escancarar essa intenção mostra que os caras além de muito talento, tinham senso de humor. O instrumental que predomina é o agressivo, pesado, proto-heavy e absurdamente técnico, mas os vocais em sua maioria são tipicamente sessentista, Roger Daltrey ainda não havia descoberto a potência máxima do seu vocal, e esse paradoxo é o que dá uma sonoridade única para esse disco que é com certeza uma das obras mais importantes da história do rock ‘n’ roll, mas que acabou sendo ofuscada pelo lançamento do mega-clássico “Tommy”, em 1969 – que é sim uma obra maior e mais pretenciosa, mas nada que desmereça esse “Sell Out”, um disco indispensável para se entender um pouco do que foi fazer rock no psicodélico e transcendental final da década de 1960.


Rafael Borges da Silva, 04 de fevereiro de 2009

David Byrne and Brian Eno – Everything That Happens Will Happen Today (Inglaterra, 2008)




1 - Home
2 - My Big Nurse
3 - I Feel My Stuff
4 - Everything That Happens
5 - Life Is Long
6 - The River
7 - Strange Overtones
8 - Wanted For Life
9 - One Fine Day
10 - Poor Boy
11 - The Lighthouse



Músicos principais:
Leo Abrahams – violão, percussão, guitarra, piano, baixo, backing vocals
David Byrne – vocais, guitarra
Brian Eno – baixo, backing vocals, guitarra, teclados, órgão, “piano inumano”



Esse é um disco chato. Não por ser mal composto, nem por ser mal tocado, muito menos por ser mal gravado – muito pelo contrário, aliás. Eno e Byrne, os dois camaradas responsáveis por essa obra, simplesmente dispensam apresentações. Dispensam tanto que, no final, o disco saiu chato – mas, não há como negar, é uma chatice de primeira.

Brian Eno, que começou sua carreira na excepcional banda Roxy Music, para depois se tornar conhecido como o músico “pai do ambient” e o produtor de bandas como U2 e Coldplay, já havia dividido um projeto com David Byrne, o tresloucado vocalista e guitarrista do Talking Heads, em 1981, no revolucionário “My Life in the Bush of Ghosts”, um disco que é considerado uma espécie de divisor de águas na música pop do início dos anos 80, com sua mistura de world music com temas eletrônicos. Mas eis que, quase trinta anos depois, Byrne resolve levar pra ouvir em casa as mais novas “paisagens sônicas” criadas por Eno e colocar letras e voz nelas, como que tentando traduzi-las em palavras. E o que Byrne viu é o que todos nós vemos todos os dias, no nosso cotidiano: que estamos vivendo em tempos chatos, mas que a esperança é, sempre, a última que morre.

Todos sabem que muitas vezes juntar dois (ou mais) músicos geniais num mesmo projeto acaba dando um resultado não muito satisfatório. Mas o que temos neste “Everything That Happens Will Happen Today” é música calculada meticulosamente para agradar os admiradores da dupla, ou qualquer apreciador de música bonita. Poucas pessoas na história foram capazes de fazer músicas tão bonitas quanto Brian Eno, e nesse disco há o fato inusitado de ele ter criado a maioria delas no violão ao invés do piano, e o vocal característico de Byrne continua com a mesma excelência de sempre, apesar de ele já não ser o “psycho killer” do final dos anos 70…

A abertura, com “Home” e “My Big Nurse”, lembram bastante a fase gospel dos Talking Heads, com o cenário cyber/ambient/eletrônico servindo de fundo para o violão e o vocal de Byrne, numa harmonia perfeita. Mas é em “I Feel My Stuff” que se tem a certeza que o que estamos ouvindo não é um disquinho qualquer. O teclado começa incerto como pingos de chuva na água para depois se tornar angustiante e tenso, e o vocal acompanha essa evolução. “Everything That Happens” já lembra o clima de discos como “Another Green World”, um dos mais famosos de Eno, um “proto-ambient” com uma melodia vocal de uma beleza espetacular. “Life is Long” é um espetáculo de otimismo diante de tanto realismo. “The River” é simples mas perfeita, e é seguida pela ótima “Strange Overtones”, que é a faixa do disco que está disponível para download no site do disco (que também tem o disco inteiro disponível em streaming), escolha que eu achei um tanto equivocada, pois apesar de muito boa, não é o ponto alto do disco. “Wanted for Life” é quase um Talking Heads típico, mas o vocal de Byrne evoluiu de uma maneira que só algumas décadas de carreira permitem. “One Fine Day” é um folk gospel celestial, já “Poor Boy” trás de volta a atmosfera angustiante de “I Feel My Stuff”. O encerramento, a triste e viajante “The Lighthouse”, é mais um indefectível exercício de beleza musical elevada ao seu extremo.

Mas mesmo tendo acabado de ouvir esse disco e achado ótimo, o fato de saber que ele foi feito por duas sumidades da música acaba nos dando a sensação de que ele poderia ter sido muito melhor – mas isso é besteira, apesar de não acrescentar nada de novo nas já bem sucedidas carreiras desses dois excepcionais músicos, “Everything That Happens Will Happen Today” é um disco confortável e fácil de se gostar, ou seja: chato.


Rafael Borges da Silva, 18 de fevereiro de 2009