John Entwistle - Smash Your Head Against the Wall (UK, 1971)





1 - My Size
2 - Pick Me Up (Big Chicken)
3 - What Are We Doing Here?
4 - What Kind of People Are They?
5 - Heaven and Hell
6 - Ted End
7 - You're Mine
8 - No. 29 (External Youth)
9 - I Believe in Everything

John Entwistle - vocais, backing vocals, baixo, metais, percussão, piano e teclados
Dave "Cyrano" Langston - guitarra, violão, percussão e backing vocals
Jerry Shirley - bateria e percussão
Keith Moon - percussão e backing vocals
Neil Innes - percussão e backing vocals


Apesar de ser criador de uma técnica absolutamente original e inovadora de tocar baixo, denominada pelo próprio como "typewriter" (datilógrafo) e que lhe rendeu o apelido de "Thunderfingers" (Dedos de Trovão), o baixista John Entwistle, a exemplo de George Harrison, teve sua participação no The Who resumida à inclusão de uma ou duas músicas por disco oficial de estúdio, fato que, a despeito do indiscutível talento como compositor do guitarrista Pete Townshend, não pode deixar de ser considerada uma injustiça - mas assim como o Beatle, suas composições sempre estavam entre os pontos altos dos álbuns em que estavam inseridas. Mas nem o fato de Entwistle ter tido que pintar seus cabelos claros de preto, para que o vocalista Roger Daltrey fosse o único loiro da banda, ofuscaram o seu talento o suficiente para que ele deixasse de ser considerado um artista genial, um dos poucos músicos da História a receber o status de 'Deus do Baixo' sem soar como exagero.

Lançado em 1971, "Smash Your Head Against the Wall" foi o primeiro disco solo lançado por um integrante do The Who, e a chance que o músico, filho de pai trumpetista e mãe pianista, teve de corrigir a injustiça supracitada e mostrar seu talento como compositor e multi-instrumentista. Colocando o treble e o volume no talo, Entwistle despeja nos tímpanos do ouvinte um rock clássico impecável, denso e tenso, com letras sarcásticas e carregadas de humor negro. Com a segurança e a autoconfiança própria dos gênios, ele não se intimida com suas limitações vocais e alcança notas altíssimas, além de lançar mão de metais para dar um tom mais épico para as suas composições; e o resultado é uma coleção de canções que, não só não ficam devendo nada aos grandes clássicos do The Who, em muitos momentos supera a obra escrita por Townshend, fato comprovado pelas gravações feitas pelas outras bandas de rock dos anos 70 e, posteriormente, pelo NWOBHM, declaradamente influenciadas pelo peso descomunal que Entwistle impunha em suas músicas.

Apesar de ter tido mais sucesso comercial com o seu segundo disco solo, o também excelente "Whistle Rymes" (1972), é nesse disco de estréia que está explícita de forma mais original tudo que Entwistle queria dizer ao mundo, sendo revolucionário mas ao mesmo tempo sem carregar nenhuma bandeira, sendo influente mas ao mesmo tempo modesto, e carimbando definitivamente seu nome em qualquer lista de maiores baixistas de todos os tempos - e figurando, geralmente, no topo delas.


Rafael Borges da Silva, 25 de abril de 2011

Alice in Chains - Jar of Flies (EUA, 1994)



1 - Rotten Apple
2 - Nutshell
3 - I Stay Away
4 - No Excuses
5 - Whale & Wasp
6 - Don't Follow
7 - Swing on This

Layne Staley – vocais
Jerry Cantrell – violão, vocais
Mike Inez – baixo, violão, vocais de apoio
Sean Kinney – bateria e percussão


Se me pedissem para definir o grunge, ou como queiram, o 'som de Seattle', com apenas uma palavra, eu não usaria 'sujo', nem 'agressivo', tampouco 'junky': a principal característica que eu vejo nas bandas dessa leva do rock americano do final dos anos 1980 e começo dos 1990 é a SINCERIDADE. Tudo bem que músicos babacas fazem músicas babacas, mas isto não quer dizer que eles estejam sendo sinceros o tempo todo - mas não é esse o ponto. No grunge, os atos e sentimentos mais obscuros do ser humano vêm a tona e são tratados com poesia, urgência e acima de tudo, genuinidade. Toda a danação e desesperança, toda a drogadição e desespero, é cantada (e berrada) sem meias palavras, fazendo com que o movimento punk, com toda sua crítica sociopolítica, pareça apenas um burocrático exercício de rebeldia, e não um retrato do que aquela geração estava vivendo em casa, nas ruas e dentro de si mesmos.

Depois de percorrer o mundo para a turnê de divulgação do seu disco mais bem sucedido comercialmente, o excelente "Dirt" (1992), os quatro rapazes do Alice in Chains voltaram para Seattle e, devido ao despejo do apartamento onde moravam, por falta de pagamento de aluguel, se mudam para o lendário estúdio London Bridge e lá, em apenas uma semana, gravam um punhado de músicas acústicas que em nada lembram as guitarras sujas e pesadas do disco anterior. Fugindo do óbvio, eles se sentam juntos pra produzir a si mesmos e mostrar que são muito mais talentosos e versáteis dos que a maioria das outras bandas de Seattle, e o resultado é um disco único, coeso, e perfeito em todos os sentidos e sob todos os pontos de vista.

O disco, que apesar de ter mais de 30 minutos de duração é considerado um EP (o mais vendido da História até então, aliás), começa com duas baladas depressivas e angustiantes, "Rotten Apple" e "Nutshell", para em seguida ser o Alice in Chains que todos conhecem, pesado, agressivo e tenso, mas ainda acústico, em "I Stay Away". "No Excuses", o maior sucesso radiofônico da banda nos anos 1990, antecede o belíssimo momento instrumental "Whales & Wasp", onde a guitarra de Cantrell parece o lamento de uma baleia a beira da morte. "Don't Follow", um soul embalados por gaita de boca e "Swing on This", com seu ritmo jazzístico, encerram de forma magistral o disco, que coloca o Alice in Chains definitivamente no seleto rol de bandas que podem gravar a música que quiser, sem se prender a rótulos, pois tem o talento de imprimir em tudo que faz a sua marca registrada, o seu jeito único de fazer música.

A banda ainda lançaria mais um disco de estúdio, epônimo, com a famosa capa de um cachorro aleijado, e um Unplugged MTV, mas os problemas de Staley com as drogas, que cuminaram com a sua morte em 2002, levou a banda a um fim prematuro. Mas o que temos nesse Jar of Flies, apesar de não ser o som mais característico que o grunge já produziu, é de uma criatividade e beleza musical de arrepiar, como tudo que a banda produziu em sua curta porém brilhante carreira.

Rafael Borges da Silva, 28 de novembro de 2010