Black Sabbath – Born Again (Inglaterra, 1983)




1 – Trashed
2 – Stonehenge
3 – Disturbing the Priest
4 – The Dark
5 – Zero the Hero
6 – Digital Bitch
7 – Born Again
8 – Hot Line
9 – Keep it Warm


Ian Gillan – vocais
Tony Iommi – guitarras, efeitos e flauta
Geezer Butler – baixo e efeitos
Bill Ward – bateria
Geoff Nicholls – teclado



Eu gosto de imaginar que a idéia de fazer esse disco tenha surgido da seguinte maneira: Tony Iommi e Ian Gillan sentados em um boteco qualquer entornando doses e mais doses de alguma bebida alcóolica (principalmente tequila) para afogar as mágoas e conversar sobre o momento atual de suas respectivas carreiras - de um lado Gillan desiludido por causa do fracasso de sua carreira solo, e Iommi meio perdido depois da demissão de Dio do Black Sabbath (reza a lenda que ele teria sabotado as fitas originais do disco ao vivo “Live Evil” para que seu vocal ficasse mais alto do que os instrumentos) - ou seja, dois monstros sagrados da História do rock n roll que de repente se viam sem rumo. Até que, lá pela vigésima rodada, alguém teria exclamado: “Vamos fazer o Black Sabbath nascer de novo!!!”. Mas também pode ter sido apenas uma idéia saída da mente de algum produtor musical avarento...

Mas o que importa é que esses dois se juntaram aos membros sabáticos originais Geezer Butler e Bill Ward (este último de volta à banda depois de ter sido substituído por Vinnie Appice no disco anterior, “Mob Rules”, seqüelado e com problemas de saúde decorrentes do álcool, aliás, problemas esses que nem permitiram que ele tocasse na Born Again Tour, tendo que ser mais uma vez substituído, dessa vez por Bev Bevan, do ELO) e viriam a lançar o que seria um dos álbuns de heavy metal mais cultuados de todos os tempos pelos verdadeiros fãs do gênero. Apesar de todas as críticas que ele recebeu e recebe até hoje, principalmente por causa da produção tosca (foi gravado só em quatro canais, e com um fusível da mesa de gravação queimado), é sim um clássico incontestável. Realmente a qualidade do som deixa a desejar, mas e daí? Estamos falando de um disco do Black Sabbath, quem disse que precisa ser limpinho e impecável? Deixemos isso pra Britney Spears e Lauryn Hill! Só concordo no que diz respeito à bateria, que soa meio oitentista demais, mas nada que chegue a atrapalhar o resultado final.

E que resultado! Será que alguém discorda que o Tonmy Iommi seja o melhor criador de riffs heavy metal que já pisou na face da Terra? Gillan assumiu todas as letras, e fez um ótimo trabalho, mas o que matou a pàv mesmo foi, é claro, o seu vocal. É como se ele tivesse sido “endorcisado” (será que essa palavra existe?) para que de sua garganta saísse o que de mais extremo e visceral pudesse sair, e o que podemos ouvir são performances que nem em seus momentos mais grandiloqüentes a frente do Deep Purple ouvimos – e com tudo soando extremante coeso, como se essa formação já tivesse tocado junto há anos.

E não bastasse a evidente competência dos músicos, a criatividade também estava em alta. Muitas músicas superam, e em muito, algumas da indefectível era Ozzy. “Trashed” é o petardo que abre o sabá, falando sobre um acidente de carro que Gillan sofreu, obviamente encharcado de birita, com o carro do Bill Ward. “Stonehenge” é uma viagem instrumental de Iommi que humilha qualquer “Fluff” ou “FX” da vida em se tratando de clima macabro e perturbador, introdução para a endiabrada “Disturbing the Priest” , inspirada em um padre que teria reclamado do barulho infernal que a banda estava fazendo durante as sessões de gravação. Na seqüência, depois de outra viagem instrumental, “The Dark” , surge das profundezas “Zero the Hero” , com uma levada que lembra um pouco o rap, mas com um riff avassaladoramente pesado, tipicamente sabbatiano. Hora de fazer o sinal da cruz e colocar o lado B: “Digital Bitch” , que seria uma espécie de “homenagem” a esposa do Ozzy, Sharon, tem um dos melhores riffs do disco, absolutamente perfeito. Depois temos a faixa título, uma balada épica e viajante, com uma atmosfera bastante melancólica, de arrepiar! Na seqüência a quase hard rock “Hot Line” , talvez a que mais se aproxima do estilo Deep Purple, e encerrando com “Keep it Warm” , outra balada com clima “fim-de-festa”, ou no caso “fim-de-sabá-demoníaco”.

É desesperadoramente lamentável que essa formação tenha durado apenas um disco, principalmente se lembrarmos que o Ian Gillan abandonou o Sabbath para se reunir com seus amiguinhos do Purple Mark II e gravar o disco “Perfect Strangers”, que até é bom, mas trocar “I’ll take your soul to plant my seed” por “my belly is aching” foi de moer... Mas pelo menos foi O disco, uma obra prima essencial, indispensável, enfim, imortal!


Rafael Borges da Silva, 13 de setembro de 2007

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